terça-feira, 3 de setembro de 2013

RECORDANDO O TI CHICO LOBO


Sargento Enfermeiro Francisco Silvério, da Carreira do Mato
 
Ao propormo-nos recordar as figuras e os acontecimentos que marcaram a Carreira do Mato e as povoações à volta, num passado que se vai esfumando com o tempo, a nossa memória não deverá esquecer o homem prestimoso que foi Francisco Silvério, que ficou conhecido como o Ti Chico Lobo.
Acontecimentos político-militares a que nos referiremos com brevidade levaram-no para terras de França, integrado no Corpo Expedicionário Português, para o palco da I Grande Guerra, onde foi 2º sargento enfermeiro.
A guerra de 1914 a 1918, envolvendo as chamadas potências centrais e as aliadas, opondo, grosso modo, a França e a Alemanha, criou a Portugal uma situação delicada: devíamos, ou não, participar no conflito? Em caso afirmativo, em que condições? E a nossa participação seria desejada ou aceite? Há quem ache que Portugal se andou a oferecer!
A queda da Monarquia, em 1910, era uma ferida recente, com a agravante de Portugal ser o segundo país da Europa a instaurar um regime republicano (o primeiro fora a França, e não valorizamos a efémera I república espanhola, de Fevereiro de 1873 a Dezembro de 1874). As opiniões divergiam e a elite política e intelectual portuguesa ia ficando cada vez mais dividida. Prevaleceu a decisão de participar, já que parecia a forma de o regime republicano se afirmar a nível internacional, e, ao mesmo tempo, assegurar a continuação da posse dos territórios ultramarinos em África. O preço da opção teve custos económicos e sociais elevados, e também criou ou agravou divisões internas, como saberemos. Fala-se em quase 10.000 mortos portugueses, entre eles o soldado José Augusto Ferreira de Castro, natural de S. João da Foz do Douro, fuzilado na Flandres, aos 23 anos, acusado de traição ao exército e de simpatias pela causa alemã (único caso de que há registo, por isso o referimos). 
 
A chamada Revolução Industrial, iniciada anos atrás, fazia das nossas colónias de África objeto da cobiça dos países industrializados. A Alemanha entra em Moçambique e em Angola, respetivamente em Agosto e Outubro de 1914. Portugal vê-se forçado a enviar tropas para África, e o Ti Chico Lobo, no esplendor da idade, parte para África, onde começa a aprender enfermagem. Na Carreira do Mato ficava a família, a esposa à espera de uma criança prestes a nascer, à qual viria a ser dado o nome de Maria Emília e que a morte arrebataria pouco depois do nascimento, sem que o pai a tivesse conhecido.
Com a declaração de guerra a Portugal, por parte da Alemanha, Francisco Silvério foi enviado diretamente de África para França. Aí sofreu todas as vicissitudes e angústias dessa coisa mesquinha e abjeta que é a guerra, numa vida entrecortada pelos horrores que esta acarreta e a dor da saudade da terra e da família, não esquecendo a filha que não conheceu.
 
Com tudo isto, e vítima dos gases no teatro de guerra, regressou à Carreira do Mato como 2.º Sargento Enfermeiro, com uma modesta pensão atribuída, a saúde abalada e uma vida encurtada. A partir de então, a sua casa no Outeiro da Raposa era uma porta sempre aberta a todos os que sofriam e lhe pediam ajuda, acometidos pela doença ou com ferimentos a precisar de intervenção e tratamento.
 
Palmilhando carreiros através de montes e vales, por vezes desde terras do outro lado do rio, eram muitos os que procuravam os conhecimentos, a boa vontade e a ajuda do antigo enfermeiro militar. O resto da sua vida foi uma dádiva e uma entrega desinteressada ao seu semelhante. Recomendava ervas, papas (cataplasmas) de linhaça, lancetava feridas, fazia curativos, dava injeções. Fazia despesas com a compra de desinfetantes, algodão, agulhas e seringas. Não cobrava dinheiro a ninguém. Quando podia, aproveitava os companheiros ou visitantes para jogar às cartas… No dizer de um filho (Diamantino Silvério, falecido em 19 de Janeiro de 2013), mesmo depois da sua morte muitas pessoas das terras à volta vinham à Carreira do Mato recordar o Ti Chico Lobo e visitar a família.
 
Como homem honesto e responsável, ele tinha a consciência das suas limitações e não hesitava em recomendar aos seus doentes que consultassem um médico, quando achava que deviam fazê-lo.
Ainda hoje muita gente se lembra do Ti Chico Lobo, e consta que em 13 de Maio de 1957 muitos choraram a sua morte. Aqui ficam, pois, estas linhas, em singela homenagem de apreço por um homem a quem a Carreira do Mato muito ficou a dever.
O conhecimento do passado ajuda-nos a compreender o presente. Fica a breve homenagem ao 2º sargento enfermeiro Francisco Silvério.


 
FRANCISCO SILVÉRIO
Nascimento: 16 de Julho de 1893.
Lugar: Carreira do Mato, freguesia Aldeia do Mato, concelho de Abrantes
Pai: Manuel Francisco Silvério.
Mãe: Ana Silvéria.
Casamento dos pais: 25 de Julho de 1892.
Avô paterno: Francisco António.
Avó paterna: Maria do Carmo.
Avô materno: António Pedro.
Avó materna: Silvéria de Jesus.
Batizado: 3 de Agosto de 1893.
Padrinho: Francisco Guilherme.
Madrinha: Maria José.
Pároco: Henrique de Oliveira Neves.
Irmãos: José, António e Maria (irmãos gémeos, ele falecido em 18 de Junho, com cerca de 2 meses, ela, a Maria Silvéria, que trazia e levava o correio da e para a Aldeia do Mato), António (o mesmo nome do irmão falecido) e Clarice.
Óbito: 13 de Maio de 1957
 
Notas:

Agradeço à Dilia a fotografia do seu bisavô, que tanto enriquece o trabalho.


Este texto reproduz um apontamento que publicamos no jornal “A Nossa Terra Natal”, edição n.º 141, de 1 de Novembro de 1985, revisto e actualizado, pese a dificuldade na obtenção de dados novos.

Manuel Paula Maça
manoel.maza@gmail.com

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