segunda-feira, 1 de julho de 2013

Maria Silvéria, a mulher que trazia cartas - Carreira do Mato

A mulher que trazia cartas

Datam de perto de 1960 as minhas memórias da Ti Maria Loba. Assim era conhecida a nossa conterrânea Maria Silvéria, nascida na Carreira do Mato no longínquo dia 24 de Abril de 1898. Se ainda estivesse connosco teria, hoje, 115 anos.

Como a generalidade das pessoas do tempo, coube-lhe trabalhar na vida agrícola e no pinhal, onde a dureza imperava. A madeira era cortada, descascada e serrada por força manual, em geral a cargo dos homens. Às mulheres cabia, sobretudo, recolher e transportar os toros à cabeça… e transportar água – por tudo isto passaram a ti Maria Loba e muitas outras mulheres.

Mas é como uma espécie de “carteira” que queremos recordá-la, num tempo em que o correio da nossa terra era enviado e recebido a partir da Aldeia do Mato (sede da freguesia), a cerca de 2 quilómetros de distância.

Todos os dias lá ia e vinha esta mulher abnegada, descendo e subindo pela Cofeira, ao sol ou à chuva, ao calor ou ao frio, para levar e trazer cartas. Se tardava no regresso, os mais ansiosos colocavam-se em local estratégico a tentar avistá-la no caminho íngreme, até que alguém dizia “já lá vem”. Simbolicamente, o seu saco de pano levava e trazia notícias, o que é dizer que trazia alegrias e tristezas, ansiedades, incertezas, venturas e desventuras, notícias da guerra na India e em África, sonhos, estados de alma e declarações de amor. As cartas eram, depois, distribuídas ao balcão do estabelecimento do Sr. Martinho Paulino e da Dona Isaltina, sob olhares piedosos, atentos e curiosos. Mas consta que a Ti Maria guardava a correspondência amorosa destinada a muitas jovens raparigas, a quem as entregava pessoalmente com algumas recomendações, evitando-lhes embaraços na relação com os pais austeros e cautelosos – um ato de amor maternal, afinal.

Por volta de 1960, o seu trabalho era remunerado em 2$50 (1,25 cêntimos, hoje) por cada viagem de ida e volta, embora nos falte informação relativa aos últimos anos. 

Registamos, ainda, que quando uma criança tinha que se deslocar da Carreira à Aldeia do Mato ia ou vinha, normalmente, na companhia desta mulher que o tempo levou. Era outra vertente do seu trabalho e da sua função social.

Como o tempo a levou, ficam estas palavras como tributo à sua memória, em mais um retalho da história da Carreira do Mato, numa espécie de agradecimento póstumo de quem algumas vezes subiu e desceu a Cofeira ao seu lado, sem medo, com companhia e proteção.
 
Maria Silvéria em foto cedida pela filha Alexandrina
Nascimento: 24 de Abril de 1898.
Lugar: Carreira do Mato, freguesia Aldeia do Mato, concelho de Abrantes
Pai: Manuel Francisco Silvério.
Mãe: Ana Silvéria.
Casamento dos pais: 25 de Julho de 1892.
Avô paterno: Francisco António.
Avó paterna: Maria do Carmo.
Avô materno: António Pedro.
Avó materna: Silvéria de Jesus.
Batizado: 1 de Maio de 1898.
Padrinho: Manuel Lopes.
Madrinha: Maria José.
Pároco: António Alves Barradas.
Irmãos: Francisco (Chico Lobo), José, António (gémeo de Maria, falecido em 18 de Junho, com c. de 2 meses), António (nome do irmão falecido) e Clarice.
 
Correios - Breve Olhar Histórico
Ao logo dos tempos, o homem sempre teve necessidade de comunicar: para declarar ou dar notícias da guerra, para divulgar os nomes dos vencedores dos jogos olímpicos, para aplicar leis, para cobrar impostos, ou por quaisquer outras razões determinadas pelo processo evolutivo da organização e do funcionamento das sociedades.
A questão era particularmente difícil antes da invenção da escrita, pelo que se recorria aos famosos sinais de fumo, ao rufar de tambores, ou, mesmo, a mensageiros que aceitavam a missão de ir transmitir verbalmente um recado ou uma ordem a qualquer lado, sempre na dúvida da chegada ao destino, já que nessas viagens muitos eram os perigos que espreitavam e punham em risco a vida do mensageiro.
Mas mesmo depois da invenção da escrita, outros desafios se colocam para a afirmação da nova forma de comunicação. São necessários materiais, instrumentos e tinta! Continuará, porém, a colocar-se o problema das distâncias.
Os primeiros materiais utilizados terão sido placas de barro cozido e de madeira, e peles de animais, mas a questão não é apenas de comunicação, mas também de fixação de códigos legais, de acordos, de contratos, de preceitos religiosas, da cartografia e do próprio conhecimento científico.
A invenção do papel é, geralmente, atribuída aos chineses e situada antes de Cristo, embora pareça que os segredos do fabrico se mantiveram guardados durante muitos e longos séculos. O fabrico do papel em Portugal terá começado em Leiria, em 1411. Pouco depois encontramos “engenhos” para o seu fabrico, também, na zona da Lousã e no norte do distrito de Leiria, nas margens do Zêzere, o que nos leva a perceber que outras fábricas se tenham instalado gradualmente nas margens do rio Nabão, na zona de Tomar…
Não esquecendo a romântica ideia da mensagem escrita em papel e acondicionada dentro de uma garrafa bem fechada, que seria lançada às águas, assumem particular e relevante importância os pombos correio, que tão úteis foram, ainda no contexto da II guerra mundial. Claro que estas aves tinham que ser preparadas e eram frágeis, havendo relatos de que o inimigo colocava falcões ou outras aves de rapina nos seus corredores de circulação… e lá se ia o pombo e se perdia a mensagem, que até poderia acabar nas mãos do inimigo.
É no reinado de D. Manuel I (1520) que surge, entre nós, o embrião dos serviços dos correios atuais, que conhecerá assinaláveis avanços no período da ocupação espanhola dos Filipes e no reinado de Dona. Maria I.
Daqui em diante, o processo organizativo é gradual, tanto em Portugal como no estrangeiro. Estabelecem-se percursos e calendários, adotam-se os transportes possíveis. São introduzidas as estampilhas ou selos, que definem que o pagador do serviço é quem envia a carta. Fazem-se acordos internacionais.
A sociedade tecnológica trouxe outras formas de comunicar. Ainda no século XIX vieram o telégrafo e o telefone. Veio a transmissão sem fios, para som e imagem, que daria lugar à rádio e à televisão. Vieram os computadores, o correio eletrónico, as redes sociais. Porém, passa-nos despercebido este processo evolutivo ao longo dos milénios.
Mas, mesmo hoje, quem não gosta ainda de receber uma carta tradicional de uma pessoa que lhe é querida?
Bibliografia consultada e recomendada:

Manuel Paula Maça
 
 
 
 
 

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