sexta-feira, 7 de junho de 2013

FERRO ALVES, UM HOMEM DO NORTE DO CONCELHO DE ABRANTES

  Villa Alves Passarinho, Aldeia do Mato

Introdução

Os tempos saudosos da infância e da adolescência aportam-me regularmente à memória, com episódios, cenas, relatos e histórias (estórias?) que passaram e que hoje não são de fácil reconstituição, já que muitos dos protagonistas e atores deixaram inexoravelmente o palco da vida.

Em situações difíceis ou embaraçosas as pessoas recorriam ao senhor Ferro Alves, a quem pediam para interceder e ajudar, fosse para arranjar um posto de trabalho, para aligeirar um processo judicial ou para escapar ao serviço militar. A ti Rosairita, da Carreira do Mato, bateu-lhe à porta quando um dos filhos estava a braços com a justiça. Consta que recebia e acolhia bem os conterrâneos que o procuravam: em Carvalhal, na Aldeia do Mato ou na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa.

De um modo simplista, constava que era pessoa influente, que era político. A minha avó até dizia que ele tinha andado escondido em covas de bagaço, para fugir à guarda – explicação vaga e atabalhoada para uma criança, já que estas coisas não pareciam combinar lá muito bem. Isto, num espaço geográfico entre as freguesias do Souto (Carvalhal) e da Aldeia do Mato, que é onde a terra se acaba e o rio começa. 

Na aldeia dizia-se que Ferro Alves era conselheiro de Salazar, mas não encontramos escrito nada que permita sustentar tal afirmação, e o bom senso recomendará prudência em relação ao que alguma tradição oral atribui ao homem que se referiu ao “lívido e cruel Salazar”, em artigo demolidor publicado na década de 1930, no Jornal da Madeira. Conheceu as prisões, como opositor ao Estado Novo (a Salazar); foi deportado para os Açores, em Julho de 1930; conheceu o exílio em Espanha e em França... Casou, aliás, em França, na cidade de Marselha, o que explica porque se falava de madame Ferro Alves, na Aldeia do Mato. A senhora chamava-se, de facto, Marie Rossett.

Porque vem a propósito, recordo que o nosso taxista Manuel Inácio Barquinha (meu saudoso padrinho e amigo) deixou vários registos do transporte de madame Ferro Alves da Aldeia do Mato para a Figueira da Foz (550$00, em Outubro de 1963, por exemplo). Também encontramos registados transportes da Dona Dores – a mãe de Leonel, parece-nos – para a Figueira da Foz, a quem cobrava menos 50$00, por respeito e gentileza, tenho a certeza. Sabemos que o casal Ferro Alves tinha ligações a esta cidade, onde um filho lecionava. De facto, Maria das Dores Ferro (a Dona Dores) sobreviveu à morte do filho Leonel.

Ainda assim, as coisas não são simples, pois a história cedo o esqueceu ou deixou de registar, com alguns historiadores a admitirem que ele se tivesse tornado – isso sim – espião do governo de Salazar (1), sobretudo (mas não apenas) por causa da intriga em torno de uma operação de contrabando de armas, no período da II república espanhola, que dá o mote ao seu livro “Os Budas”. Mas enfim, à data (1935) Leonel das Dores Ferro Alves é um jovem de 31 anos, senhor de uma escrita com linguagem rica e fluente, não raro a rasar a expressão poética, por onde também perpassam claramente ódios de estimação, figadais em relação a Jaime Cortesão, entre outros. É, porventura, mais um revoltado que um idealista. Diz bem de si próprio e das suas ideias, diminuindo ou criticando os outros, sem deixar claras ou percetíveis as suas razões ou os seus ideais, com textos globalmente confusos, imprecisos e sem fio condutor. Porém, a intriga e o divisionismo imperaram na I Primeira República e na oposição ao Estado Novo, dificultando sucessivamente a eficácia do combate político.

O esforço posto na busca de informações - envolvendo deslocações, contactos, obtenção de documentação e bibliografia - não foi fácil nem barato. Este apontamento poderá, então, ser um contributo para um trabalho mais alargado que fica por fazer e a que outros poderão dar continuidade.

Fica Leonel das Dores Ferro Alves, um homem do norte do concelho de Abrantes, que foi jornalista e advogado e que recebia bem os conterrâneos. Partiu numa manhã de inverno, em Lisboa, aos 58 anos. Passaram cinquenta anos em 8 de Janeiro de 2013. Foi sepultado no cemitério do Alto de São João.  
 
 Recorte de Assento de Baptismo



                                                                                       Jardim Maria das Dores, Aldeia do Mato

(1)   Heloisa Paulo, em «O exílio português no Brasil: Os “Budas” e a oposição antissalazarista»

(continua)

Manuel Paula Maça
manoel.maza@gmail.com

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