quinta-feira, 16 de maio de 2013

CANCRO: O IRREMEDIÁVEL, OU TALVEZ NÃO

Faz hoje 10 anos que a doença me levou para a sala de operações e para salas e corredores que, afinal, não eram só para os outros.
O apontamento que segue foi publicado oportunamente no Jornal das Cortes (Leiria). Para além de um testemunho pessoal, desejaria que fosse uma mensagem de ânimo, de esperança e solidariedade.


1. PREÂMBULO

Imagine o leitor que se sente muito bem e vende saúde. Acha que há coisas que só acontecem aos outros, mas, como o seguro morreu de velho, decide submeter-se aos exames que os técnicos recomendam, para confirmar essa saúde de ferro e dar consistência às certezas. Uma colonoscopia, por exemplo, que é recomendável pelos 50 anos.
De repente pode sentir que, afinal, há coisas que não acontecem só aos outros! 
Que dizer à família e aos amigos? Como e quando? Será que a mentira piedosa existe ou é eficaz? A doença não é apenas um facto individual, porque também familiar e social, já que de diversas formas e com variável intensidade atinge os que estão à nossa volta, e que connosco vão partilhar humanas dúvidas e incertezas.
É preciso aprender a lidar com a verdade, enfrentá-la mas não afrontá-la, numa relação de estranha intimidade em que queremos ser capazes de tratá-la por tu. Isso vai ajudar-nos a manter o equilíbrio emocional e facilitar a relação com médicos, técnicos e outras pessoas que vão estar em absoluto do nosso lado, ao limite. É errado pensar que está tudo perdido, pois temos que preservar as energias de que vamos precisar... Os casos com desfecho fatal tendem a afluir-nos à mente: é natural, pois é desses que ouvimos falar, o que é pena.
Frequentemente a cirurgia é recomendada, e isso significa que ainda há algo a fazer. Conforme o prognóstico, a quimioterapia e a radioterapia poderão vir depois. Se não curar, o tratamento pode aliviar e conferir expectativa e qualidade de vida, pelo que deverá ser visto como mais uma esperança e uma etapa a vencer. Por assim dizer, é preciso encher o peito de ar e seguir em frente.
Também nestas coisas os heróis têm pés de barro, e talvez que a recusa da doença possa ser um processo inconsciente, sem fases ou momentos de desânimo visíveis, mas o importante é encontrar forma de lidar com o medo e com as emoções: não parar, ocupar o tempo, fazer coisas. 
Sentiremos que nos tornamos motivo de conversa esquiva entre os amigos e colegas de trabalho. Especulam, mas não é por mal. Quase adivinhamos o que dizem de nós, e mais tarde saberemos que se enganaram ao dar-nos dois ou três meses de vida. Uns aparecem, visitam-nos, sendo perceptível que não sabem o que dizer ou perguntar; outros não dão sinal, talvez que com sensibilidades fragilizadas.
Não somos iguais, e temos o direito de reservar para nós aquilo que nos diz respeito. Mas talvez que fazer da doença um segredo ou um tabu não seja a melhor forma de encontramos conforto, força, alívio e segurança.



 Sensibilização para rastreio do cancro do cólon
(com Hospital de Santo André - Leiria)


2. UM OLHAR PELA HISTÓRIA

Os primeiros textos médicos a relatar casos que parecem corresponder a cancros datam de cerca de 3.500 anos antes de Cristo: Egipto, Pérsia, Mesopotâmia, Índia. Para além de escassa e dispersa, a informação é inconsistente, pese o valioso contributo das antigas civilizações para o estudo da medicina, num lento e acidentado percurso de milhares de anos.
Hipócrates (c. 400 a. C.) falou em carcinoma ou cirro. Em latim adotou-se o termo câncer, que significa caranguejo e que acabou por ficar. Galeno (c. 129), viria a atribuir a etiologia da doença a um desequilíbrio da bílis negra, que considerava um dos quatro humores do corpo humano. Deste modo, e durante cerca de 15 séculos, o cancro é considerado uma doença geral, para a qual se recomendam sangrias, alimentação e tratamentos insólitos.
Em 1320, Henri de Mondeville (França) dizia: “nenhum cancro se cura, a menos que seja radicalmente extirpado na totalidade; com efeito, por muito pouco que dele fique, a malignidade aumenta na raiz”. Ainda assim, os cirurgiões ficariam cépticos e divididos durante séculos; faltava conhecer o corpo humano e a célula, descobrir a anestesia, criar e desenvolver instrumentos e material.
Do século XVI em diante, começarão a ser dados passos importantes, mas lentos e inseguros, ainda.
Ambroise Paré (1510-1590), percorre numerosos campos de batalha como cirurgião-barbeiro militar. Estuda latim e outras matérias, e é admitido no Colégio dos Cirurgiões de Paris. Publica obra vasta e adquire notoriedade. Como homem de transição, chegou às portas da modernidade, e, revelando tradicionalismo e inovação, achava que as metástases (ramificações do cancro original) seriam “manifestações locais do humor negro” (1). 
No século XVII, Nicolau Tulp faz elaboradas descrições anatómicas de cancros, apoiado na descoberta recente da circulação do sangue e do sistema linfático. 
Porém, há quem comece a afirmar que a doença é contagiosa, e doravante muitos hospitais vão recusar-se a receber doentes. É por isso que em Reims (França) o cónego Godinot cria um hospital para cancerosos, em 1740. Londres também teria um hospital idêntico, em 1792. O chamado “Centre Anti-cancereux de la Région Parisienne” viria em 1921.
No século XVIII, o cirurgião inglês John Hunter defende que os tumores são tecidos anormais que fazem parte do corpo, tal como os tecidos normais. Aos poucos vai-se estruturando a ideia de que o cancro é uma doença local, que pode disseminar-se por outros órgãos ou locais, a partir de um tumor de origem. Está definitivamente comprometida a ideia de que o cancro é uma doença geral. Por essa época, os franceses Bichat e Laennec apresentam a concepção anatómica da doença. O desafio à cirurgia está lançado.
Em Londres surge a ideia de que alguns cancros podem resultar do contacto com determinadas substâncias (causas ambientais e profissionais), face à constatação de que muitos limpa-chaminés são afectados. Isto contribuirá para alargar a visão social desta e de outras doenças, e abrirá portas ao conceito de doenças profissionais. Em 1895 era promulgada (em Inglaterra) a primeira lei sobre higiene e segurança no trabalho (Factories and Workshops Act of 1895).
O desenvolvimento da investigação (com crescente recurso ao microscópio) favorece a tese das mutações das células. Surge a ideia das vacinas e começa a experimentação com animais. Grosso modo, chega a cancerologia experimental. 
Em finais do século XIX esboçavam-se tratamentos por quimioterapia, com base no arsenito de potássio (Lissaver, 1885) e na toxina de Coley (1890). Porém, há indícios de que já no antigo Egipto e na antiga Grécia se tinha tentado o recurso a drogas quimioterápicas, sob a forma de sais metálicos.
Em 1895 e 1898 ocorrem duas descobertas importantes: os raios X e a radioactividade, respectivamente. Em 1903 iniciam-se os tratamentos de radioterapia, que não pararam de desenvolver-se em todo o mundo.
No início do século XX está assente que o cancro resulta da modificação do material genético da célula, que deixa de obedecer às leis da homeostase e se multiplica. Surgem os marcadores biológicos e começam a desenvolver-se terapêuticas para aliviar o sofrimento dos doentes. A investigação não parou, e a detecção precoce da doença vem permitindo tratar com sucesso e curar um número cada vez maior de casos. Os avanços científicos no campo da genética surpreendem-nos quase diariamente, e é razoável pensar que em breve o cancro possa deixar de ser a segunda causa de morte nas sociedades modernas.

3.  EM PORTUGAL

Com a consolidação do regime liberal (1836) ocorre a reorganização do ensino da medicina e da cirurgia. Não obstante a cíclica instabilidade política e social, havia alguma tradição de aquisição de conhecimentos e formação médico-cirúrgica a partir da França e da Itália, através dos mestres que vinham para Portugal ou dos que iam lá formar-se ou actualizar-se. 
No que se refere à prestação de cuidados, o atraso era enorme. Tínhamos as instituições de inspiração caritativa, onde é obrigatório referir o papel relevante das Misericórdias, naturalmente voltadas para as vertentes espiritual e social. A exiguidade dos meios e a dispersão dos recursos também não ajudavam, sobretudo num contexto de epidemias sucessivas que dizimavam populações.
Em finais do século XIX surgem nomes que vão prestigiar a medicina e ficar associados à organização da investigação, do ensino, da formação e da prestação de cuidados.
Câmara Pestana é um dos fundadores da bacteriologia (1892), após ter defendido uma dissertação a que chamou “O Micróbio do Carcinoma” (1889), perante a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Viria a ser vítima mortal de um surto de peste bubónica, no Porto (1899).
Ricardo Jorge é outro nome a destacar. Dirigiu a Organização Geral dos Serviços de Saúde Pública (Reforma Sanitária de Ricardo Jorge), iniciada em 1899, sob o Governo de José Luciano de Castro. No âmbito desse processo, em 1901 viria a ser consignada a criação da Direcção-Geral de Saúde e de Beneficência Pública, já no Governo de Hintze Ribeiro. 
E o cancro? – Poderemos perguntar, no meio deste interregno na abordagem histórica.
Porventura com o impulso dado pela dissertação “O Micróbio do Carcinoma”, de Câmara Pestana (1889), em 21 de Janeiro de 1904 foi criada a 1ª Comissão para o Estudo do Cancro, presidida pelo Prof. Ferraz de Macedo.
Seguiu-se o XV Congresso Internacional de Medicina (1906), que reuniu cerca de 2.000 congressistas em Lisboa, no qual o Prof. Francisco Gentil (1878 – 1964) secretariou a secção de Cirurgia.
Em 1907, Francisco Gentil promove uma série de concorridas e participadas conferências sobre o problema do cancro, onde o Prof. Miguel Bombarda tem papel de relevo. A morte de Ferraz de Macedo (1907) leva à nomeação de nova equipa para dirigir a Comissão para o Estudo do Cancro, que passa a ser presidida por Ricardo Jorge, sendo Francisco Gentil um dos vogais.
Em 1912 é criada no Hospital de Santa Marta, Lisboa, uma consulta para doentes cancerosos, dirigida pelo Prof. Francisco Gentil.
Em 1915 é fundada uma secção de estudos cancerológicos, na 1ª Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina de Lisboa. A direcção é confiada ao Prof. Francisco Gentil.
Em 1921, no Hospital da Misericórdia do Porto, foi inaugurado um serviço para tratamento do cancro.
Em 1923, sendo António Sérgio Ministro da Instrução, é criado o Instituto Português para o Estudo do Cancro, que fica a funcionar no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Francisco Gentil preside à direcção. 
Em 1927 são disponibilizados 4.000 contos para terrenos, construções e equipamentos do futuro Instituto Português de Oncologia, em Palhavã, Lisboa, que ao longo dos tempos não parou de ser ampliado e crescer a todos os níveis. Actualmente é uma unidade de nível internacional, em termos técnicos e humanos, sem esquecer a investigação e o ensino.
Em 1940 é criada a Escola Técnica de Enfermeiras, que funciona na dependência da Comissão Directora do Instituto, ali ao lado (Decreto n.º 30.447, 17 de Maio, Ministério da Educação Nacional). São objectivos, entre outros, “assegurarem cuidados de enfermagem especializados aos doentes do IPO...”, embora possam “ser admitidas ao exercício da enfermagem em todos os estabelecimentos hospitalares e de saúde pública” (2).
Em 1953 é, finalmente, fundado o Centro Regional de Coimbra do IPO (CROC), que iniciaria a actividade em 1962, numa moradia adquirida e adaptada para o efeito. Considera-se que o fundador foi o Prof. Doutor Luís Raposo, e o Prof. Doutor Ibérico Nogueira o 1º Director (1961 a 1974). A autonomia em relação a Lisboa ocorre em 1977 (3). Esta unidade modelar de Oncologia serve hoje grande parte dos distritos periféricos.
Partindo da velha moradia, ao longo de décadas as instalações do CROC (Coimbra) têm sido ampliadas e actualizadas em meios técnicos e humanos, e na adopção de modernas técnicas de diagnóstico e tratamento, ensino e investigação, a par da irrepreensível humanização da relação com os doentes.
Na avaliação da qualidade e satisfação dos utentes nos hospitais EPE os resultados de topo cabem ao IPO (Lisboa, Porto e Coimbra).
Finalmente, não é por falta de legislação que Portugal fica atrás em aspectos científicos e organizativos. É importante a produção e o tratamento de dados estatísticos, como elementos estruturantes das acções a desenvolver, dos meios a afectar e a distribuir.

4. A LIGA PORTUGUESA CONTRA O CANCRO

Embora existam grupos de risco, na doença oncológica a regra é a ausência de regras: espreita, ataca e instala-se num silêncio que se prolonga ao limite. Consome uma fatia grande do orçamento da saúde e arrasta problemas sociais evidentes. Daí que tenham surgido acções de solidariedade para apoiar a luta contra a doença e aliviar-lhe as consequências, ao nível do doente e da família.
Em 1931 foi fundada a Comissão de Iniciativa Particular de Luta Contra o Cancro, por iniciativa de Mécia Mouzinho de Albuquerque, num grupo a que se associaram Beatriz de Magalhães Colaço, Maria da Paz Batalha e Maria de Santana Bénard Guedes. Fomentando a solidariedade e o voluntariado, ao longo de dez anos organizaram peditórios e apoiaram doentes e familiares. Na acta de uma reunião ocorrida em 20 de Abril de 1940 ficou escrito que “por sua interferência os particulares têm concorrido com cerca de 20% para a obra realizada pelo Instituto Português de Oncologia”.
Em 4 de Abril de 1941 foi publicada em Diário do Governo a Portaria 9772 (Ministro da Educação Nacional, Mário de Figueiredo), que criava a Liga Portuguesa Contra o Cancro, que daria seguimento à obra da Comissão referida, como Francisco Gentil defendia desde 1937. Registem-se nomes da primeira Direcção da Liga: Prof. Raposo de Magalhães, Presidente; Dr. Mário Neves, Secretário; Dr. Francisco Bénard Guedes, Tesoureiro.
Seguiu-se um trabalho exaustivo, com medidas de informação e apoio às populações, criação de instalações e iniciativas variadas. Viriam a ser criados núcleos regionais: Norte, em 1963; Açores, em 1964; Centro (Coimbra), em 30 de Junho de 1971; Madeira, em 1987.
O Núcleo Regional do Centro (Coimbra) conta hoje com mais de 40 funcionários e 800 voluntários. Desenvolve actividade em 7 Distritos (82 concelhos) do Centro.
O chamado Movimento Vencer e Viver é uma iniciativa da Liga, que funciona (também) nas instalações do nosso Hospital de Santo André (Leiria). É um grupo que integra mulheres que também tiveram o cancro da mama, que agora dão apoio prático e moral às mulheres e  familiares que dele necessitarem. 
Vale a pena aceder ao site da Liga em http://www.ligacontracancro.pt/ . Ser associado custa, actualmente, 10 Euros anuais!
 

5. REFERÊNCIAS HISTÓRICAS NA IMPRENSA DE LEIRIA

Chegou-nos um texto publicado na página 1 do jornal “Leiriense” n.º 14, de 2 de Junho de 1904, que reflectia preocupações com a obtenção de dados estatísticos, que transcrevemos:
«Estudo do cancro
«Tendo terminado a distribuição dos impressos para se apurar o número de cancros existentes no país e podendo haver, por quaisquer circunstâncias, médicos que os não tivessem recebido, podem os mesmos requisitá-los aos governadores civis dos respectivos distritos ou à secretaria da comissão encarregada do estudo do cancro - hospital de S. José.
«Considera-se oficial a correspondência trocada com a comissão, e por esse motivo é isenta de pagamento de porte de correio.
«Terminou no dia 31 de Maio o prazo para a recepção dos questionários para o continente, e no dia 31 de Outubro findará para o ultramar.» (4)
Ironicamente, só passado quase um século se vê luz ao fundo do túnel!  
Em  31 de Outubro de 1931 “O Mensageiro” (n.º 842) publicava a seguinte notícia, que julgamos relacionada com a acção da já referida Comissão de Iniciativa Particular de Luta Contra o Cancro
«Luta contra o cancro
Uma comissão de senhoras desta cidade [de Leiria] promove amanhã [dia 1-1-1931] e segunda-feira [2-11-1931] um peditório destinado à luta contra o cancro, campanha que vem sendo tratada no jornal da capital “Diário de Notícias”.
É de esperar que as ilustres senhoras sejam bem sucedidas na sua tarefa, porquanto todos devem contribuir para debelar a terrível doença.
É o que muito desejamos, pedindo a todos os nossos leitores que contribuam com o seu grande ou pequeno óbulo.» (4)
Na edição n.º 843, de 7 de Novembro de 1931, “O Mensageiro” retomava o assunto nos seguintes termos:
«Luta contra o cancro
O peditório feito em Leiria, no domingo passado, por uma comissão de senhoras desta cidade, rendeu 5.200$00.
A Comissão a que presidiram as Ex.mas Senhoras D. Fernanda Larcher Nunes, D. Maria Rosa Ataíde e D. Maria do Carmo Frois de Almeida, é digna dos maiores louvores pelo carinho e dedicação com que enfrentaram a sua missão, no que foram extraordinariamente coadjuvadas não só pelas senhoras que as rodearam, como pela população da cidade.
É de consolar o resultado obtido, conseguindo Leiria ficar à frente de muitas outras cidades.» (4)
Fica-nos, deste modo, o testemunho da adesão dos Leirienses à causa do combate à doença oncológica desde a primeira hora. 

 
 
Manuel Paula Maça
 

manoel.maza@gmail.com

 
(1) As Doenças têm História, Jacques le Goff, Terramar, 1991.

(2) Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil, 75 anos.

(3) Um Caminho com História, Centro Regional de Oncologia de Coimbra, S. A., 2003.

(4) Cedência amável de Carlos Fernandes.

 

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