quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

RIBATEJO, BREVES MEMÓRIAS PESSOAIS

"Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas.
Gaibéus lhes chamam".

Alves Redol



I – JANELA ABERTA
Ao longo da década de 60 do século passado as gentes da minha terra demandavam Lisboa, no cumprimento de uma espécie de desígnio, em busca daquilo que a terra madrasta lhes negava, muitas vezes com sonhos e pesadelos dispersos e disfarçados, confundindo-se no meio da modesta bagagem entulhada em cestos de verga. Se bem me lembro, a esperança morava no rosto luminoso do meu pai e o receio habitava nos olhos embaciados da minha mãe.
Com 11 frescos anos lá fui, Ribatejo adiante, empoleirado a granel dentro do velho carro de aluguer do meu saudoso padrinho Barquinha, com a marca Dodge e a matrícula FF-13-66. Esperava-me a chamada Escola Técnica Elementar Nuno Gonçalves, que iria seguir-se aos breves meses da EICA (Escola Industrial e Comercial de Abrantes) e ao quarto alugado na casa do Sr. Luís da B.P., na Rua Luís de Camões, em Abrantes. Não retenho saudades de uma nem da outra, e não tenho, felizmente, insucesso escolar a determinar tal forma de sentir. Há coisas difíceis de explicar racionalmente, mas talvez tivesse querido levar comigo os pinheiros, os pássaros, o rio, e uns pedaços daquele chão de pedras, carquejas e tojos, difíceis de combinar com as cidades, pois há coisas que se agarram a nós. Tardei, porém, a despir o horroroso fato- macaco azul que fui obrigado a usar enquanto aluno (estudante?) da EICA, que recordo como espécie de anátema ou castigo salazarento determinado e imposto pela humildade das origens – as minhas e as dos meus companheiros.
Ao domingo, Lisboa abria as portas, tornava-se manta de retalhos de um Portugal rural derramado, mas, ao menos, o fato-macaco azul da EICA ia ficando para trás. O jardim do Campo Pequeno, com a cervejaria José Ricardo quase na esquina, era o ponto de encontro dos meus conterrâneos que tinham ousado a aventura e o sonho, arrumando-se em casas partilhadas por várias famílias, ocupando sótãos e águas furtadas ou casas de porteira.
O apego às origens, à terra, não se apagava, não se esvaía, talvez que por uma questão de segurança, ilusória ou não. A aldeia era um porto de abrigo imaginário aonde se podia voltar, mesmo sem estar ali, à mão. Lá tinham ficado o Xico do Té, o Luís da Mónica, o Zé Timbela, o Estronca, o primo Josué, e muitos outros, numa aldeia antropologicamente no masculino.
De uma maneira ou de outra, habituei-me a atravessar o Ribatejo, inicialmente em longas e labirínticas viagens, que misturavam o comboio em terceira classe, o autocarro vagaroso e fumarento, o carro de aluguer e os percursos a pé. O Ribatejo havia, pois, de ficar-me entranhado na memória, talvez na carne e na alma virtual
Nesses tempos um carro gasto e usado poderia custar até 20 contos, e os meus conterrâneos lá iam gerindo o fôlego e a exiguidade material dos sucessos. O Vauxhall Wyvern velho e cansado do meu pai custou 16 contos e tinha a matrícula BE-16-41. Outros parentes e amigos tinham veículos como o Volvo “marreco”, o Peugeot 203, o Morris Minor, ou uma qualquer versão do velho Volkswagen.
O ritmo das viagens ocasionais à aldeia aumentava gradualmente: para visitar os mais idosos, para fazer a água-pé, para preparar as sementeiras, para ir à festa anual de Agosto, para trazer uma galinha ou uma saca de batatas... ou para matar saudades, ou para todas as coisas juntas, se não, mesmo, para dar sinais exteriores de uma prosperidade ilusória, ou tímida e pouco exigente. A partida de Lisboa, em grupo, era da Rotunda do Aeroporto. Lá íamos por esse Ribatejo imenso adiante, as velhas aranhas mecânicas saltitando entre os buracos e o alcatrão, aquecendo ou avariando intermitentemente, dando aos mais velhos espaço e oportunidade para beber um copo, afinar os neurónios e atestar a água dos radiadores fumegantes e cansados. Ficaram-me na memória dois locais onde habitualmente se faziam essas operações de manutenção, apesar de, em seguida, alguns carros terem que pegar de empurrão. Digamos que é aí que às vezes me encontro com algumas ausências, particularmente em Benfica do Ribatejo ou junto à ponte da Golegã. E não me recordo de um só conterrâneo, alguma vez, ter confundido vinho com água ou com gasolina, nestas complexas operações a requerer atenção, agilidade e uma mão-de-obra diferenciada.



II - AVIEIROS, GAIBÉUS E FERROVIÁRIOS
Por ironia e por circunstâncias da vida, volvidos muitos anos, deixei Lisboa e fui para uma cidade de província (centro litoral). Viria a passar muitos fins-de-semana em casa do meu amigo Joaquim, em terra de comboios e de ferroviários, com o Tejo ao lado. Por assim dizer, ficava ainda mais distanciado o Ribatejo de estradas esburacadas que conhecera enquanto criança e adolescente; penetrava, agora, num Ribatejo interior, com outras veredas e diferentes caminhos.
Muitas vezes, junto à lareira do Joaquim, depois do jantar servido pela Dona Preciosa, entre o digestivo da noite e o fumo aromático do cachimbo, com um jornal derramado ao lado, eu recordava as histórias onde o tio Luís e o meu pai me falavam na vida dura dos gaibéus e dos avieiros, sendo-lhes difícil adiantar explicações políticas ou sociológicas que fossem além das suas experiências pessoais de adolescentes adiados e resignados, entregues à colheita do arroz, na zona de Santarém, de sol-a-sol. Nestas conversas retrospectivas, eu adivinhava que no dia a seguir o Joaquim avançaria comigo pela Quinta da Cardiga, pela Azinhaga, pelos campos férteis da Golegã, e me levaria até junto de amigos que falavam da dureza e das incertezas da vida, naquela linguagem que o meu pai e o tio Luís me haviam deixado na memória e que eu passava a entender melhor, embora também soubesse que havia quem dissesse que Portugal era a inveja da Europa.
Por vezes, o amigo Joaquim colocava na mesa do almoço ou do jantar um vinho tinto da Quinta da Cardiga ou um branco fresco de cor dourada, da Adega Cooperativa da Chamusca. Não discutíamos Baudelaire, mas lá aconchegávamos o estômago e a mente, em saborosos momentos sem angústias existenciais ou metafísicas. Depois, era o doce aconchego do quarto que me esperava no primeiro andar daquela casa, numa rua sossegada da cidade ferroviária, onde eu saboreava a irrepreensível pontualidade de um comboio que passava a apitar pelas cinco horas da manhã.
O Joaquim guardava dentro de si, em estóico silêncio e impressionante secretismo, uma doença que lhe corroía as entranhas e de cuja dimensão tardiamente me apercebi. Como estas coisas têm limites, o tempo mostrou as garras da voracidade, e veio a partida inesperada, dolorosa, desnecessária, precoce e inexorável - uma perda com a marca do irremediável. Fiquei mais pobre, e o Ribatejo voltou a ser um espaço de passagem, com mais marcas de ausências!
Tudo isto e outras circunstâncias naturais da vida puseram termo a esses fins-de-semana e aos saudosos eventos que a memória retém. Os comboios continuam a sulcar os carris ao longo dos dias e das noites (apitando pelas cinco horas da manhã, se calhar) e o Tejo continua a espreguiçar-se majestosamente, quase ali ao lado.
Do vinho da Quinta da Cardiga, com a cor do sangue, nem sinais; o branco frutado, de cor dourada, da Adega Cooperativa da Chamusca, também não volta à mesa do Joaquim, porque o Joaquim também não volta.

III – AO SERVIÇO DA PÁTRIA
Deixei para trás a minha incursão de 3 meses, como recruta da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, no quente Verão de 1972, com a guerra colonial ao lado. Um espaço temporal que não deixou saudades, embora me pareça ter sido bom a marcar passo ou a fazer manobras essenciais para a salvação da pátria, como “esquerda e direita a volver” ou “apresentar arma”, e, até, a “queda na máscara”. Sem ressentimentos pessoais e sem prejuízo da compreensão que é devida, assumo que muitas vezes os instrutores até tinham semelhanças com os humanos, sem excluir o tenente a quem seria injusto chamar uma santa besta (era bípede), que se atirava como capão assanhado aos instruendos que marchavam mal, corrigindo-os à bofetada, em nome do cargo que cabia a um e da missão suprema que esperava o outro (um dia o outro ficou a sangrar, dos lábios ou dos dentes, embora não consiga recordar se ficou a marchar melhor, por efeitos da pedagógica bofetada). Mas este é o Ribatejo que não importa recordar, apesar de as coisas serem ainda mais refinadas em Tavira, onde decorreu a segunda fase da instrução. Embora tenha ficado no grupo dos bem classificados, princípios éticos, morais e de consciência determinam uma expressão saudosa de solidariedade para com os companheiros desta caminhada inglória, iniciada em Santarém (com o Tejo ao fundo). Fica, então, um olhar à memória do Sousa (de Montemor-o-Novo) e do Freitas (dos Açores), que acabaram por deixar a vida no teatro da guerra, em Moçambique.


IV – E AGORA?
Resta-me, então, o convívio com a imensidão docemente acidentada da campina ribatejana, de mãos entrelaçadas no passado e no presente, saboreando melão e vinho numa banca em madeira, à beira da estrada, numa consistência a que as cores, a luz e o calor do Verão dão alma e vida, sem que o Joaquim se aperceba de quantas vezes também viaja comigo. Imperceptivelmente!

29 Janeiro 2012


Manuel Paula Maça



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