segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Ti Zé Pedro Partiu





O Tio Zé Pedro (Ensaio)

“A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena”. António Gedeão















A Intriga, Ensor, 1890








Era bonita a aldeia onde nasci.
As casas eram de traça simples, de branco caiadas, bem portuguesas, bastante funcionais. Um ou dois quartos eram suficientes para o humano aconchego de muita gente, e, se necessário fosse, ao lado dos currais dos animais, num palheiro ou num anexo, ainda haveria lugar para mais dois ou três. Nas cálidas noites de Verão havia quem não dispensasse a dormida na rua, numa manta estendida sobre as carumas, sob um céu estrelado
(o ti Zé Pedro punha a caçadeira ao lado, quando pernoitava debaixo da laranjeira).
A casa-de-fora era um espaço privilegiado, de utilidade aparentemente inquestionável, que servia para colocar uma mesa e umas cadeiras onde o caruncho convivia harmoniosamente com as litografias de santos e de santas, frequentemente com um crucifixo e um ramo de palmeira a preencher e a compor o espaço nas paredes, já que as imagens do cristo-rei só apareceriam a partir da inauguração do monumento de gosto duvidoso, em 1959. Era aí que se rezava nas noites de inverno, quando os trovões ecoavam por montes e vales e os pinheiros se contorciam ante as temíveis descargas de fogo azul enviadas do céu.
À volta das casas, por vezes, viam-se muros feitos de pedra amassada com barro e cal, e portões ou cancelas de madeira a partir das quais se acedia à natureza que imperava num chão de carumas, fetos e carquejas, emprestando uma paz simples e despretensiosa à coabitação natural com galinhas, coelhos, ovelhas e outros animais domésticos, em ecológico convívio.
(o senhor padre também vinha fazer a visita pascal. Então, viam-se amêndoas por perto).
Eram dispensáveis coisas supérfluas, como casas de banho, torneiras ou autoclismos. Electricidade e luzes esquisitas penduradas, também eram coisas distantes, imagináveis apenas, incompatíveis com o cheiro a petróleo dos candeeiros, pois até havia a ideia de que pudessem ter sido obra do demónio. As crianças comiam pão de milho amarelo, às vezes bolorento e sem sonhos por dentro, feito lá em casa uma vez por semana, em observância escrupulosa pelo símbolismo religioso que presidia e oficiava nesses rituais e nesta doce paz que a todos preparava para as dificuldades, apesar das teias de aranha nem sempre perceptíveis.
A escola era uma espécie de modernismo discutível, já que arrancava as crianças aos campos e à pastorícia, onde se preparavam homens e mulheres para a vida, não fora este país moralmente bem formado a inveja da Europa, ameaçada pelos males da irreligiosidade e do comunismo.
Estradas não havia, nem eram necessárias, até porque o negro do alcatrão acabaria por descaracterizar a paisagem bucólica, atravessada por pastores, carros de bois, carroças e burros. Também não havia automóveis nem mísseis.
(o senhor padre vinha de bicicleta, mais tarde passou à motorizada, e um dia apareceu com um Citroen 2 CV, sem, com isso, comprometer a dignidade do culto dominical).
A questão das estradas, ou a sua ausência, traz-me à memória um dia de festa que dá substância a este olhar retrospectivo. Por alturas da Páscoa, o senhor cónego Freitas viria presidir a umas cerimónias religiosas, em representação do S. Excelência Reverendíssima o bispo de Portalegre (D. Agostinho Joaquim Lopes de Moura, segundo os meus registos). A aldeia estava engalanada. Em breves semanas de trabalho, a fé e a devoção daquelas gentes prepararam umas dezenas de metros do percurso, que cobriram com flores, não fosse o dignitário calçar, por exemplo, uns modestos e simples sapatinhos vermelhos, a antecipar aqueles que Sua Santidade costuma usar. Até o meu saudoso padrinho Barquinha era uma homem feliz, empoleirado num banco de madeira em que desafiava o equilíbrio, incitando os circunstantes a um “Viva o senhor cónego Freitas”, num êxtase de felicidade contagiante, bonito e comovente.
A vida, individual e colectiva, caminhava sem solavancos. Médicos engravatados e empertigados também não havia nem pareciam necessários, pois o Sr. António alfaiate e a Dona Claudiana sabiam bem como ferver agulhas e seringas para dar injecções. Claro que a foice da morte vinha, disfarçada mas eficiente, o que significava apenas que de vez em quando o Deus todo-poderoso se servia de chamar mais uma alma à sua divina presença.

Mas o ti Zé Pedro partiu!
Carregando um ar triste, o desateu, movia-se tão discretamente quanto possível, a tomar notas, a fazer registos e rascunhos mentais, quiçá para elaborar e apresentar ao criador uma contestação fundamentada, a propósito da vida e da morte, em que os humanos são activistas sem vontade própria e sem direito a voto, já que a qualquer momento o alvará da vida lhes pode ser retirado.
Estranhamente assim conhecido, o desateu sentia-se estimado, sendo tido como letrado e hábil no exercício da escrita. Aparentemente, era um racionalista inquieto; era-lhe reconhecido amor à terra e aos amigos, já que parecia não distinguir velhos ou novos, pobres ou remediados, embora lhes confundisse e trocasse os nomes. Na verdade, guardava num arquivo secreto da memória velhas imagens do rio, das fontes com água a correr, dos montes e dos vales, auroras, céus estrelados, cheiros de terra e aromas da natureza, pastores e gado nos caminhos.
O senhor padre organizara uma espécie de cortejo de peregrinos em duas filas certinhas e ordeiras, que avançavam lentamente ladeando a estrada que vai da igreja ao cemitério. Lá à frente, o sacerdote rezava de megafone na mão, voz forte, talvez para que as preces chegassem com maior eficácia e mais eficiência às paragens do além, onde penam, irremediavelmente, muitas almas esfrangalhadas.
(há quem diga que o padre é um homem bonito).
Ainda bem, que não apareceu o Mark Twain a repetir os disparates que proferiu quando Alexandre Bell inventou o telefone: “a voz humana já se ouve longe de mais”. Mas a hora era de dor e consternação, e muitos dos acompanhantes até pareciam anjinhos, em posturas de candura e pureza, embora as asas não fossem perceptíveis.
Claro que o desateu percebia que o padre promovesse o seu produto, mesmo sem a marca EU, e ainda que subtraído ao controlo de qualidade da ASAE. Maldade seria pensar que, com o megafone, o sacerdote poderia ir ensaiando poses para os comícios de um partido da direita democrática, na próxima campanha eleitoral, suposto que é que tais equipamentos não sejam usuais em estabelecimentos de convívio nocturno, mas também é sabido que a igreja não faz política.
Quando o cortejo descreveu a curva da Estrada Larga, a menina Mariazinha benzeu-se com a solenidade adequada ao acto. Não conteve a emoção e ajoelhou-se antes de integrar o cortejo.
(há quem diga que a menina Mariazinha se ajoelha frequentemente em frente do senhor padre).
Chegado a um lugar com frias lápides e placas de pedra, o senhor padre dispensou o megafone, passou à leitura de uns apontamentos, e lá deve ter enviado ao criador um SMS de recomendação, apesar de uma cova absurda com flores, fitas e laços à volta.
Uma aragem soprou, suave, ligeira e fria.
O desateu não viu mais o ti Zé Pedro, e teve a sensação de que, afinal, o pobre padre nada poderia fazer para inflectir as regras absurdas das coisas, nem interferir no complexo tabuleiro de xadrez em que a vida e a morte jogam uma partida derradeira e viciada.






Manuel Paula Maça manoel.maza@gmail.com

Torre da Magueixa, 21 de Dezembro de 2008

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