sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

MAÇA E MASSA, APELIDOS






ANTROPONÍMIA: OS NOMES QUE TEMOS

De uma forma ou de outra, qualquer um de nós já se interrogou sobre as razões porque tem determinado nome ou apelido. De facto, quando encontramos alguém que também tem o nosso apelido surge, normalmente, alguma curiosidade ou, mesmo, um sentimento de familiaridade.
A matéria é complexa, e importará começar por distinguir e separar os vocábulos que compõem o nome completo de um indivíduo: são eles o nome próprio e os apelidos.
Com algumas actualizações, fica um texto em tempos publicado no jornal “O Correio Lisboa Zêzere”, fundado e dirigido pelo meu amigo João Pico.

Nome Próprio
A lei actual permite a adopção de um máximo de dois vocábulos para designar o nome próprio de um indivíduo. Depois vêm os apelidos, que normalmente são retirados dos progenitores. Até 1958 a lei era mais permissiva, e é por isso que o actual pretendente ao trono português – o simpático D. Duarte Nuno – tem no seu nome próprio tanto como onze vocábulos! Mas no caso dos nossos conterrâneos e antepassados não encontramos mais de dois vocábulos, como sejam Maria da Conceição ou José António, por exemplo.
Num país católico, é interessante percorrer a Bíblia, onde Deus e os seus enviados muitas vezes designavam o nome a dar a quem ia nascer. São de inspiração biblico-religiosa nomes tão comuns e usuais como Noé, Abel, José, João, Lucas, Josué, Isaías, Pedro, Joaquim (nome do pai de Maria), Maria, Sara, Judite, Madalena, Ana (mãe de Maria) por exemplo. De igual modo, outros nomes correspondem a Santos (as) e a doutores da Igreja: Tomás, Agostinho, Jerónimo, Martinho, Sebastião, Francisco, Rosário, Ana, Bárbara, Mónica, Filomena, Cecília, serão exemplos. Noutros, ainda, a raiz etimológica é clara: Deolinda, Deodato, Teófilo, Cristina, (E)Manuel, Teodoro...

Apelido
Os apelidos são os vocábulos que se juntam ao nome próprio, e normalmente são retirados do nome dos pais. Algumas vezes seriam “património” familiar de ascendência nobre ou importante. Frequentemente eram adaptados de alcunhas e, conforme os tempos e as modas, podem ser conotados com aspectos de que deixamos exemplos:
a) Profissões ou actividades: Moleiro, Ferrador, Ferreiro, Barqueiro, Padeiro, Guarda, Sapateiro, Serrador, etc.
b) Origem ou lugar: Portela, Pico, Outeiro, Vale, Adro, Abrantes, Lisboa, Ribeiro, etc.
c) Características físicas: Gordo, Magro, Barrigudo, Feio, Belo, Louro, Penteado, etc.
d) Qualidades e defeitos morais: Mau, Bom, Leal, Modesto, etc.
e) Mundo vegetal: Pinheiro, Pereira, Laranjeira, Carvalho, Rosa, Figueira, Matos, etc.
f) Mundo animal: Cordeiro, Lobo, Sardinha, Rato, Raposo, Pinto, Coelho, etc.
g) Elementos estrangeiros: Espanhol, Inglês, Galego, Francês, etc. A participação de Portugal na I Grande Guerra e as Invasões Francesas terão deixado aqui sério contributo.
Em meios rurais como o nosso eram frequentes nomes e apelidos tradicionalmente masculinos adaptados ao feminino. Exemplos: Simoa, Renata, Silvéria, Tomásia, Perdigoa, Machada... Registamos diversos casos, num estudo em torno dos registos paroquiais da Aldeia do Mato, no período entre 1859 e 1912. Lá iremos um dia, eventualmente.
Ao longo do século XX, nomes próprios e apelidos foram inspirados na chamada "Literatura de Cordel" (tipo Capricho); nas estrelas do futebol e do cinema; nas figuras proeminentes da política; nas vedetas das telenovelas brasileiras; na emigração das nossas gentes para países da Europa.






UM APELIDO: MAÇA OU MASSA?
Sendo-me permitido falar na primeira pessoa, bem cedo me apercebi da invulgaridade do meu apelido, transmitido por meu saudoso pai, conhecido como "Zé Carolino", nascido na Ribeira da Brunheta, freguesia do Souto, concelho de Abrantes.
Pegando no meu acervo de documentos oficiais, verifico que meu pai teve uma Cédula de Nascimento que o dava como José Rodrigues Maça e, mais tarde, um Bilhete de Identidade em que o apelido tinha sido trocado por Massa. De facto, já seu pai (e meu avô) se chamara e ficara registado como António Rodrigues Maça. Os registos civis cometiam erros? Naturalmente que sim, e cometeram, pois eu próprio era Massa no Bilhete de Identidade, aos onze anos (o que fiz corrigir mais tarde), sendo Maça na Cédula e Certidão de Nascimento.
A família foi frutificando, nomeadamente na freguesia do Souto. E foi o um amigo que durante trabalho de pesquisa na Torre do Tombo me forneceu elementos que encontrou, que mostram que uma família de apelido Maça vivia na Abrançalha nos começos do século XIX. E foram os casamentos, devidamente documentados, que levaram o apelido para a Ribeira da Brunheta, Freguesia do Souto. Com "Ç", registemos.
Percorrendo bibliografia diversa, as listas telefónicas e, mais recentemente, a Internet fomos encontrando elementos curiosos.
Pegando no "Dicionário das Famílias Portuguesas" (1) achamos escrito: "MAÇA – Nome de uma família da nobreza de Aragão, dela passou a Portugal um ramo em data que se ignora (...)".
Se formos ao "Armorial Lusitano – Genealogia e Heráldica" (2) (obra bastante completa, mas com restrições de transcrição, por reserva de direitos) encontramos elementos coincidentes com os anteriores, procedendo o nome de D. Fortum Maza, homem importante das relações de Pedro I de Aragão, vitorioso na batalha de Alcorás, com o apoio de trezentos homens armados com maças (3). Outros do mesmo apelido se teriam encontrado na batalha de Navas de Tolosa. Esta obra também diz ignorar-se em que data o apelido passou para Portugal.
A mesma obra dá-nos outros exemplos de apelidos que vieram de Espanha para Portugal, num contexto histórico que não caberá no âmbito deste trabalho. Não resistimos a deixar um exemplo: o apelido "Castanho" veio da zona das Astúrias no tempo de D. João III e fixou-se na zona de Abrantes. Se formos ao Pego, temos por lá boa gente com este apelido!
Segundo o "Armorial Lusitano" as armas dos Maças são de vermelho, com uma maça de armas de ouro, em pala, ladeada por duas cadeias também de ouro e em pala.
Mas a questão é complexa, pois na zona espanhola Basca encontramos diversos "Maza" e correspondentes escudos de armas, contendo sempre a tal arma chamada "maça". Simultaneamente, encontramos os "Maça de Liçana" na Catalunha, e encontramos a ligação destes com os do País Basco, e até com a região francesa de Gasconha.
Antes de entrarmos, com mais pormenor, na abordagem em torno da Espanha ou França, deixamos transcrição do mais antigo registo que encontramos: "1134 Dezembro – Domingos Anes e sua mulher, João Martins e Pedro Maça vendem ao Mosteiro de Santa Cruz um terreno em Ribela (junto à muralha de Coimbra) por dez morabitinos" (4).
Quanto ao apelido na forma de "Massa", encontramos registos claramente ligados ao concelho de Abrantes, e, mais ou menos isoladamente, a outras zonas do país, como a Cova da Beira. Mas encontramos muitos nos Açores. Se formos para a América Latina, com destaque para o Brasil, também não será difícil encontrar o apelido “Massa”, neste caso com eventual origem italiana, pois no Noroeste de Itália existe uma cidade com este nome.




BENTO MAÇA, UM JUDEU EM AZAMOR
Com a conversão obrigatória de 1497, no reinado de D. Manuel I, todos os judeus que não conseguiram fugir do país foram baptizados compulsoriamente e tiveram que abandonar os seus nomes e adoptar nomes cristãos, quer nomes próprios quer de família. Esta obrigatoriedade não se estendeu imediatamente aos domínios ultramarinos, na África e na Índia, onde os judeus puderam permanecer como tal durante algum tempo e para onde alguns foram.
O judeu Bento Maça, por exemplo, era almoxarife de Azamor em 1522, por nomeação do capitão e governador da cidade, D. Álvaro de Noronha (5).

PORRAS, UM APELIDO MAÇADOR
Um vulgar dicionário diz-nos que “porra” pode ser um cacete que serve de arma (branca), ou uma “maça”, ou um pau com moca na ponta.
D. Luíz de Lancastre e Távora (1) refere-se aos “Porras” como uma ilustre família leonesa, com alguns membros que se refugiaram em Portugal quando D. Afonso V penetrou em território castelhano. O apelido não teria tido continuidade face ao sentido pejorativo da palavra entre nós. Ainda assim, deixa-nos a descrição do brasão, que ostentava “maças”.
A semelhança ou o parentesco entre a “maça” e a “porra” deixam claro que outro apelido nos poderia ter calhado, em vez de “Maça”.


UM OLHAR ALÉM FRONTEIRAS
Cremos estar entendida a relação / coincidência entre Maza e Maça, pois os nomes e apelidos são escritos de acordo com a grafia dos países e respectivas línguas. Maria e José, são exemplos, pois escrevem-se diferentemente de um país para o outro. Dentro da própria Espanha a questão é particularmente evidente: o Castelhano é a língua oficial, mas permanecem o Galego, o Basco e o Catalão, por exemplo.
De facto, a questão é complexa. Os séculos passaram, e as guerras, rivalidades e desavenças provocaram deslocações que escapam aos registos. Ainda assim, as pesquisas sugerem a existência de três ramos do apelido Maça (ou Maza) nessa noite dos tempos: um deles, em França, na zona de Gasconha, perto da Catalunha; outro na zona de Santander (País Basco); o outro na Andaluzia, embora pouco se encontre neste caso.
D. Félix de Lizana (Liçana) teria vindo de Gasconha (França) para Espanha, tendo participado nas lutas pela ocupação de Múrcia. Os seus soldados não teriam usado espadas nem outras armas convencionais, mas sim "maças". Tal circunstância teria levado D. Félix a adoptar o apelido Maça e escudo de ouro com três maças. Esta nota coincide, em parte, com o que consta do atrás referido "Armorial Lusitano" (2).
A partir do século XIV, os registos começam a referir-se aos Maça de Liçana eventualmente descendentes de D. Félix. (ou D. Fortum?), num contexto em que são grandes as disputas entre as coroas de Castela e Aragão.
Mas é em torno da vila senhorial de Monòver, primitivamente integrada no reino muçulmano de Múrcia, que encontramos alguns dos registos que nos interessam.
Em 1296, ocorre a conquista de Monòver, que Jaime II de Valência faz integrar no seu reino. Em 1328, D. Afonso IV dá a vila a D. Gonçalo Garcia, um dos seus conselheiros de confiança. A posse será transmitida aos descendentes, mas com a condição de voltar à coroa no caso de se extinguir a linha de sucessão masculina.
Em 1356, Pedro Maça de Liçana já era senhor de Monòver, e esta família deteria o senhorio da vila e de outras povoações em redor até finais do século XVI, ao estar exaurida a linha directa da família.
Em documento de 22 de Novembro de 1687, damos conta que na vila de Nabal, na zona de Aragão, existe um Pedro Maça de Liçana, mestre tecelão e Comissário da Deputação de Aragão, que examina e dá aval de capacidade e aptidão para a mesma arte a Juan Borbolet...
Mas as coisas não acabam aqui, pois a Gran Enciclopèdia Catalana, volume 7, (6) dá-nos conta da existência do Capitão General Valero I Maça de Liçana, em 1801.
Quanto ao apelido com a grafia espanhola "Maza", ficou mesmo instalado em Espanha e na América Latina, onde continua a ser muito usado!
Ainda hoje, em algumas zonas da Catalunha, ocorrem festividades populares designadas por "bailes do diabo", espécie de invocação de entidades sobrenaturais, simbolizando a luta entre o bem e o mal, em que os figurantes do diabo, à excepção de Lucifer, levam uma maça na mão... acabando derrotados por um anjo!


EM QUE FICAMOS?
A abordagem que deixamos assenta num interesse pessoal. É uma tentativa de contributo para perceber uma questão que familiares e amigos às vezes colocam.
Frequentemente surgem erros nos registos, e isso seria particularmente frequente em tempos que já lá vão, quando a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. Por outro lado, as crianças eram registadas nas paróquias, muitas vezes com letra pouco legível, pois só após a implantação da República seria instituído o registo civil obrigatório.
No caso presente, não pretendemos por familiares e amigos a correr para os serviços dos Registos Civis. Pessoalmente, mantemos e defendemos o apelido como nos foi "dado" e como o encontramos na documentação referida, ou seja, o argumento histórico está do nosso lado (Maça).
As achegas e contributos que os nossos amigos e leitores quiserem dar ao assunto, serão bem acolhidas

Manuel Paula Maça manoel.maza@gmail.com

(1) D. Luiz de Lancastre e Távora (Marquês de Abrantes), Quetzal Editores, Lisboa, 1989.
(2) Direcção do Doutor Afonso Eduardo Martins Zúquete, Editorial Enciclopédia, Ldª, Representações Zairol, Lisboa, 1961.
(3) Arma importante na Idade Média. Encontramos muitas referências, em particular nos pormenores estudados em zonas distintas de Espanha: a Catalunha e o País Basco.
(4) Livro de Santa Cruz, Leontina Ventura e Ana Santiago Faria, edição do Instituto Nacional de Investigação Científica, distribuição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1990.
(5) Encontramos na net diversa documentação descritiva e reproduzida, a este propósito.
(6) Barcelona, 1993. Não conseguimos (ainda) acesso integral.

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