quinta-feira, 9 de julho de 2009

Fonte do Vale. ETAR


A CARREIRA DO MATO E A AGONIA DE UMA FONTE

1. A Fonte do Vale e o projecto da ETAR

No dia 8 de Abril de 1908, no Cartório da então Vila de Abrantes, uma senhora "de avançada edade", chamada Ana Maria Margarida, viúva de José Rodrigues Barreiro, fazia a filhos e netos escritura de doação de várias propriedades na Carreira do Mato e no Carregal. Tal senhora era filha de António José e de Margarida Teresa e viria a falecer a 15 de Fevereiro de 1910, com a bonita idade de 98 anos.
Importando, ou não, para o caso, esta senhora foi minha trisavó. Concretamente, foi mãe da minha bisavó Maria da Conceição, que, por sua vez, foi mãe do meu avô materno Francisco Pedro, a quem coube a alcunha de “Maneiras”.
Porquê “Maneiras”, já agora?
Bem, o meu avô (de quem a penumbra do tempo me deixou imagens vagas) foi ferreiro em Lisboa e nas obras da barragem do Castelo do Bode. Consta que na capital terá enriquecido a sua linguagem com a expressão “de maneira que”, que trouxe e de que fazia uso na Carreira do Mato. Assim, ficou “O Maneiras”, também conhecido por ter e ler o Livro de São Cipriano, ou por ter uma grafonola que acabaria por lhe ser roubada. Nasceu em 20 de Janeiro de 1885, tendo seu pai sido José Pedro, serrador de profissão.
Minha bisavó Maria da Conceição seria mulher muito virtuosa e, como tal, "zeladora de crianças", com uma particular boa relação com o padre Henrique de Oliveira Neves, pároco desde 1888 até 18 de Agosto de 1897. Este sacerdote foi, aliás, padrinho de baptizado de muitas crianças, mesmo em data posterior, quando já estaria a exercer em Mouriscas. Os seus afilhados do sexo masculino receberam o nome de Henrique.

Voltando à Relação de Bens de Ana Maria Margarida, lá vamos encontrar propriedades no sítio do Vale, ainda hoje pertença dos descendentes, sendo referidos vários poços e nascentes de água, uma das quais teria vindo a converter-se na chamada "fonte do Vale", porventura em associação com outras nascentes, algumas vindas de muito longe – dizia-se.

É neste local que se pretende construir a ETAR da discórdia, de que os meus conterrâneos e amigos falam, com carinho, oportunidade e respeito pela história da sua terra. Foram, aliás, estes amigos que há poucos anos limparam e recuperaram o que puderam desta e de outras fontes da terra e que agora interpelaram a Câmara Municipal a propósito do projecto.

A fonte do Vale foi vital para as pessoas da Carreira do Mato, que ali vinham saciar a sede e buscar água para usos domésticos, um pouco como acontecia ainda recentemente. Dificilmente esqueceremos os cântaros de barro carregados ao ombro ou à cabeça, ou ainda os burros que, devidamente aparelhados, carregavam quatro cântaros de cada vez! Sendo um bem precioso, a água da fonte escorria para um tanque que era lavadouro público e ajudava na irrigação dos férteis terrenos agrícolas ali ao lado.
Os burros quase desapareceram (ou não), mas a fonte ainda lá está, ostentando há algum tempo uma inscrição vaga e lacónica, dizendo "água de qualidade desconhecida". Não sabemos ao certo, mas talvez seja mais uma marca daquilo a que se chama progresso, manifestado de forma fria e arrogante, em tão aprazível lugar.



2. O Fascínio da Água

A água sempre exerceu grande fascínio sobre o ser humano ao longo da história. A maior parte do planeta está coberta de água, normalmente líquida, mas também no estado sólido e gasoso. A água é o principal componente dos organismos animais e vegetais. Poetas, filósofos, namorados, os mais comuns dos mortais, todos gostavam de rios, fontes, chuva e nascentes. Nos primórdios da ciência, e na tentativa de explicar racionalmente a formação do universo, a água era um dos quatro elementos (os outros eram o fogo, a terra e o ar)!... Na antiga Grécia, o filósofo Heraclito, de Éfeso, observava o movimento das coisas e dizia que "as águas que correm num rio nunca são as mesmas"; nas antigas civilizações divinizavam-se os rios, e muitos são ainda considerados sagrados: o Nilo e o Ganges, por exemplo. Muitas figuras da Mitologia, muitos génios do bem e do mal, provinham das águas; a deusa Vénus teria nascido da espuma das ondas do mar; as Tágides cantadas por Camões, nos Lusíadas, eram as ninfas do Tejo; as "mouras encantadas", de que a "Bicha Pintada", no Penedo Furado, perto de Vila de Rei, é exemplo (1), também habitavam junto de poços, nascentes ou cursos de água.
Finalmente, a água foi sempre considerada fundamental para a limpeza do corpo e do espírito, daí a profusão (a perder-se aos poucos) de águas santas e de águas medicinais, de que a nascente da Senhora do Tojo foi o exemplo mais próximo que conhecemos (2).
Importa lembrar a importância da água nas celebrações da Igreja Católica, em particular no Baptizado. Com efeito, Jesus Cristo fez-se baptizar nas águas do Rio Jordão!... Ainda hoje, quais reminiscências de antigos hábitos e de velhas culturas, muitos povos tomam banhos em datas determinadas. Quem sabe se o banho do primeiro dia do ano, que costumamos ver nas nossas praias, não é um exemplo de reminiscências culturais!...
Com tudo isto, parece que a água merece ser melhor tratada e que a ideia de que ela é um recurso inesgotável pode causar danos e custos irreparáveis às gerações actuais e, sobretudo, às gerações vindouras. Juntamo-nos aos nossos amigos!
Requiem pela Fonte do Vale!

Manuel Paula Maça

Em Julho de 1994, a propósito da fonte do Vale, publicamos um pequeno apontamento no Jornal A Nossa Terra Natal (Abrantes).

(1) Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Estudos Etnográficos, Consiglieri Pedroso, Publicações D. Quixote, Lisboa 1988.

(2) Aquilégio Medicinal, Francisco da Fonseca Henriques, Lisboa, 1726.

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