terça-feira, 17 de março de 2009

CIGANOS...
António Domingues, nascido
no concelho de Abrantes.


A comunicação social trouxe-nos hoje uma questão que não será para tratar aqui, excepto enquanto fenómeno histórico e social que, enquanto tal, há muito nos interessa e merece respeito.


Quem viveu na Carreira do Mato há umas dezenas de anos lembra-se de ver chegar e de ver partir os ciganos.


Uma oportunidade, então, para desenterrar memórias e percorrer ao de leve a história, sem esquecer , uma vez mais, que nunca um trabalho desta natureza estará completo. Fica o subsídio possível.




1. Os Príncipes do Nada...
Não me agrada escrever na primeira pessoa, excepto em questões pessoais que acabam definhando em pastas e gavetas, amarelecendo na cor e não sei se nas ideias.
Mas a saga dos Ciganos também é uma questão pessoal, além de social, histórica e humana, capaz de incomodar e de sacudir consciências, conforme a grandeza e a capacidade de cada um de nós para reconhecer sentimentos residentes, (in) conscientemente primários ou de discutível racionalidade.
Nos tempos recuados da infância, às vezes entre a tarde e o rio, os ciganos aportavam à minha aldeia, em carroças estridentes e vagarosas que sulcavam o pó ou a lama da estrada. Dá-me ideia que nestas e noutras situações uma ave negra esvoaçava nos céus de então e, de certo modo, dominava os ares (seria o medo?)!
Os ciganos lá montavam o seu acampamento, pediam couves e batatas, faziam fogueiras e abalavam uns dias depois, deixando intactos os pinheiros e o chão de pedras e de carqueja. A pacatez da aldeia mantinha a pureza, na sua marcha de normalidade à beira do Zêzere plantada. Felizmente (se bem me lembro), nunca a minha mãe me assustou com ciganos capazes de me levarem se eu me portasse mal, embora na verdade o voejar dessa ave negra (talvez o medo!) fosse uma constante!...
Em tempos idos, uma cigana leu a sina ao meu tio-avô Bernardino, da cabeça Gorda, e disse-lhe que havia de atravessar águas. Ele deixou a aldeia e foi viver para Peniche, onde está sepultado. Mas se atravessou águas por certo teria sido apenas para ir às Berlengas, ali bem perto.
Em finais da década de sessenta, Manuel Alegre escrevia assim, no texto Rosas Vermelhas, em A Praça da Canção: "Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos".
Miguel Torga deixou-nos no Diário outro texto bonito, datado de 7 de Outubro de 1954: "Ciganos. E mais uma vez a minha raiz humana estremeceu. São eles que me dão sempre a medida absoluta da liberdade que não tenho e por que suspiro. Anarquistas em espírito e corpo, lembram-me príncipes do nada, milionários do desinteresse, sacerdotes da preguiça, ampulhetas obstinadas onde o tempo não se escoa. Comem a podridão, vestem-se de absurdo, são marcianos na terra. E a vê-los caminhar na poeira do transitório, é a imagem do homem ideal que vejo passar, lírica e desdenhosa".
Em tempos, D. Manuel Martins, à data, Bispo de Setúbal, afirmou em Fátima que a Igreja devia pedir "perdão aos ciganos", porque "não se tem solidarizado com eles nesta quase perseguição que lhes está a ser movida" (1) .
Em 4 de Maio de 1997, em Roma, ocorreu a primeira beatificação de um cigano. Tratava-se de Zeferino Jiménez Malla, assassinado em Espanha em Agosto de 1936, e que a Igreja Católica considerou "mártir da fé em Deus e na devoção a Nossa Senhora” (2) .
"Perseguidos ou desprezados, os ciganos encontram na fidelidade às tradições e na solidariedade ilimitada entre eles, a razão da sua permanente sobrevivência", lia-se no Jornal O Ribatejo, no Suplemento Jovem, de Julho de 1996.
Em 11 de Junho de 1995, a propósito do Dia Mundial do Cigano, O jornal Público falava dos ciganos como "nem santos, nem diabos". Afinal, como nós!
A questão é complexa e incómoda. Por razões éticas e étnicas, históricas, morais e religiosas, ou um pouco por tudo isto, o problema está na ordem do dia, quiçá como se certos males das sociedades modernas fossem apenas património e atributo de alguns, neste caso dos ciganos. Como se, de um modo simplista, eles fossem os diabos e nós os santos.

2. Elementos históricos: "Andarás errante pela face da Terra".
A escassez de elementos escritos sobre a origem e a história do povo cigano divide opiniões. Também as diferentes formas de aculturação e de sedentarização deste povo nómada pelo mundo adensam a complexidade do problema. Felizmente que alguma bibliografia tem sido editada e outra reeditada; a própria comunicação social tem manifestado interesse na matéria, e talvez tenham aumentado as condições materiais para a abordagem descomplexada (embora complexa) do problema.
O destacável da Revista Volta ao Mundo, N.º 10, de Agosto de 1995, recordava uma lenda que situa na Índia a origem do povo cigano, numa sociedade dominada por feiticeiros, imbuída de sentido de respeito e obediência a regras e aos mais velhos, onde pontificava Tchen. A chegada dos exércitos invasores teria sido prevista por este feiticeiro, mas mal recebida pela comunidade, cujos opositores o expulsaram. Foi então que ele rogou uma praga: "Andarás, errante, pela face da Terra; nunca dormirás duas vezes no mesmo sítio e nunca beberás água duas vezes do mesmo poço".
O facto é que os exércitos vieram, devastaram, destruíram e expulsaram, como Tchen previra: Alexandre, O Grande; Gengis Khan; e outros.
Os ciganos terão partido, e passado a errantes e a nómadas, sem pátria e sem religião, sem dirigentes políticos, transportando, porventura, fortes traços fisionómicos e culturais hindus. Andaram pela Boémia, Arménia, Hungria, Rússia, Roménia, Egipto, Grécia... Chegaram a todos os cantos do Mundo, e, como adiante veremos, ao Portugal e à Espanha do século XV, onde foram condenados à deportação, a trabalhos forçados, às galés, etc. Mais tarde, Hitler também não deixaria de lhes reservar a atenção e o tratamento adoptados para com os Judeus.
Os ciganos inspiraram artistas diversos, que os trataram bem, em geral: pintores, escritores e músicos, não foram os ciganos, frequentemente, eles próprios, exímios dançarinos, cantores e tocadores de instrumentos musicais. O poeta Persa Ferdusi diz que no século V o Xá Bahram V convidou 12 mil ciganos descendentes da tribo Lur para alegrarem o seu reino. Matisse pintou cenas de ciganos em 1906. Bizet compôs a imortal ópera Carmen, com várias mulheres ciganas (Carmen é uma bohèmienne). Também na ópera O Trovador, Verdi colocou, no meio dos ciganos que trabalham o ferro na Biscaia (os Biscainhos?) a cigana Azucena, que criou Manrico (o Trovador), como se fosse seu filho!
A ideia de que os ciganos poderão ter passado do Magrebe ou, mais em concreto, do Egipto para a Andaluzia, em Espanha, tem muitos simpatizantes, embora não haja unanimidade. As designações gitane e gipsy, do Francês e do Inglês, respectivamente, podem ser associadas a Egypt, com uma certa boa vontade: (E)gitane e (E)gipsy.
Maria Rosa Ivanowich Estevão Abelin (3), jornalista e fonoaudióloga brasileira, investigadora da cultura cigana (ela própria é de origem cigana) situa a chegada dos ciganos à Europa Central por volta do século XIII, quando seriam conhecidos como Egiptanos e se apresentariam como peregrinos e penitentes fugidos do Egipto. Há, aliás, quem procure estabelecer ligações entre a lenda e uma passagem bíblica (4): "Dispersarei os Egípcios entre as nações, eu os disseminarei em diversos países".
As designações Bohème e Bohèmienne (utilizadas na ópera Carmen, por exemplo) poderão, talvez, ligar-se à passagem dos ciganos pela antiga Boémia, admitida em diversa bibliografia.
Poderíamos, ainda, falar das designações de zíngaro e de zingarella, do Espanhol e do Italiano: isso daria pano para mangas, e precisaria de investigação mais desenvolvida.
Nos arquivos de Barcelona há um documento antigo, segundo o qual Afonso V, em 1425, autoriza um tal Juan de Egipto Menor e sua família a passear livremente pela Catalunha e por Aragão. Existem documentos idênticos referentes ao Conde Tomás de Egito e ao Duque Pablo de Egipto Menor.
O filólogo Dr. José Pedro Machado (5) sustenta que o vocábulo poderá ter entrado em Portugal pelo Francês. Apoia-se em historiadores bizantinos do século IX que designaram por athínganoi uma seita herética da Ásia Menor, "que evitava o contacto com quaisquer outras pessoas; tinham fama de magos, de adivinhos, de encantadores de serpentes".

3. Portugal : Referências Históricas.
Os ciganos poderão ter entrado em Portugal na segunda metade do século XV (6). No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende há uma poesia de Luís da Silveira que relata um "engano" cometido por um cigano. Em 1521, Gil Vicente fez representar em Évora a Farsa dos Ciganos, encenando leitura de sinas, embustes e mendicidade; na peça entravam 4 homens e 4 mulheres. Cerca de um século mais tarde, em 1612, Cervantes viria a publicar A Jitanilla.
Ao longo dos tempos há indícios de queixas das populações contra os ciganos, pelo que estes não seriam bem aceites. Quanto às actividades a que poderiam, ou não, dedicar-se, chegou a defender-se que não pudessem ser ferreiros, posto que "só visão a fim de fazer gazuas e instrumentos de roubar".
Eis, então, algumas medidas legislativas tomadas ao longo dos tempos:
- Em 13 de Maio de 1526, um diploma de D. João III determina a expulsão dos ciganos de território nacional;
- Em 1538, perante queixas de "furtos e outros malefícios", legisla-se no sentido de impedir a entrada de ciganos e de expulsar os que cá estão, sob pena de serem condenados à pena de açoites com baraço e pregão;
- Em 1573, D. Sebastião renova as medidas anteriores, estabelecendo um novo prazo de 30 dias para a expulsão, e retirando as licenças de permanência anteriormente concedidas;
- Em 1579, D. Henrique retoma a política de concessão de licenças "àqueles que vivem bem e que trabalham e que não são prejudiciais", embora com a obrigação de viverem em bairros separados;
- Em 1592, Filipe I deu-lhes um prazo de 4 meses para saírem do reino, sob pena de serem condenados à morte;
- Em 1602 é retomada a política de expulsão, a executar depois da condenação às galés;
- Em 1613 regressa-se à ordem de expulsão, a executar num prazo de 15 dias;
- Em 1647, já com D. João IV, legisla-se no sentido da deportação dos ciganos para os territórios ultramarinos. Porém, data de 1574 o primeiro documento conhecido relativo ao desterro de um cigano para o Brasil (Maranhão). Era João de torres, e estivera preso no Limoeiro (7);
- Em 1686, com D. Pedro II, é confirmada a anterior legislação, mas é feita uma separação dos ciganos que já são portugueses;
- Em 1708, com D. João V, é confirmada a política anterior;
- Em 1745, ainda com D. João V, é reafirmada a política anterior, em particular a necessidade de serem cumpridas as penas de deportação para as colónias;
- Em 1800, Pina Manique preconiza uma medida que não chega a ser aplicada: a prisão dos ciganos "que vivam sem domicílio e andem vagos no reino", sendo-lhes retirados os filhos, que seriam entregues à Casa Pia e "instruídos na moral cristã e nas obrigações sociais e aprenderem as artes manufacturas";
- Em 1822 e em 1826 a Constituição e a Carta Constitucional eliminam as desigualdades fundamentadas na raça, reconhecendo a cidadania aos nascidos em Portugal. Deixou de ser punida a condição de cigano, ainda que vagabundo;
- Em 18 de Abril de1848, uma Portaria determina que seja exercida sobre os ciganos uma vigilância especial;
- Em 20 de Setembro de 1920, o Regulamento da Guarda Nacional Republicana determina expressamente uma severa vigilância sobre os ciganos.;
- Em 1980, por determinação do Conselho da Revolução, apoiado na Comissão Constitucional, é retirado ao referido Regulamento a referência aos ciganos;
- Em 1985, o novo Regulamento da Guarda Nacional Republicana determina especial vigilância... não sobre os ciganos, mas... sobre os nómadas.
Os acontecimentos recentes mostram que não foi ainda encontrada solução para o problema, pelo menos em Portugal, e ela não será fácil sem um espírito de tolerância recíproco. O crescimento e o alargamento dos espaços urbanos deixa cada vez menos espaço à forma de vida e de organização tradicionais dos ciganos. Mas a resistência destes a novos hábitos também pesa neste xadrez complexo. Vamos a ver os resultados das iniciativas das organizações e dos grupos de trabalho que têm vindo a terreiro. O processo há-de ser lento e passa um pouco por todos: por nós e por eles.

4. Cigano: a corrupção da palavra.
Expressões de uso corrente na nossa linguagem, deixam-nos uma imagem pouco lisonjeira dos ciganos. Quem não conhece, por exemplo, a expressão um olho no burro, outro no cigano? E a palavra ciganice, para designar um negócio menos honesto?... E a anedota do cigano que achou uma corda, e que o burro estava agarrado a ela?...
Percorrendo alguns dicionários encontramos, para a palavra cigano, os significados seguintes :
. s.m. indivíduo pertencente a uma raça nómada, a raça cigana, provavelmente originária da Índia e emigrada para a Europa Central, que possui um código ético próprio e que se dedica ao comércio, ao artesanato, a ler a sina, etc; (fig) vendedor ambulante, homem astuto, velhaco, trapaceiro, burlador; adj. ladino, esperto, ardiloso (em Grande Dicionário Universal da Língua Portuguesa, versão CD ROM, Texto Editora);
. s.m. indivíduo da raça dos Ciganos; adj. trapaceiro; ladino; traficante de mercadorias subtraídas aos direitos; pop. avaro; impostor;..." (Em Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ª Edição, 1977).

Manuel Paula Maça

(1) Revista Visão, n.º 206, 5 de Março de 1997.
(2) Jornal O Mensageiro, 8 de Maio de 1997.
(3) Vd Internet http:/inbrapenet.com.br/gipsy/bio.htm
(4) Livro de Ezequiel, capítulo 30.
(5) Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Editorial Confluência, 2ª Edição, Lisboa, 1967.
(6) Sobre a matéria, veja-se um estudo organizado por Fátima Pinto e Luiza Cortesão, chamado Povo Cigano: Cidadãos na Sombra, subtitulado de Processos Explícitos e Ocultos de Exclusão. Edições Afrontamento, Porto, 1995.
(7) Os Ciganos de Portugal, Adolfo Coelho, 1892, reedição D. Quixote, colecção Portugal de Perto, 1995.

Post Scriptum: Para ilustrar este texto procuramos obter uma fotografia tradicional, daquelas em que uma família cigana calcorreava quilómetros numa carroça, de terra em terra. Não conseguimos obtê-la, e o trabalho estava escrito.
Acabamos por encontar uma pequena mas simpática comunidade cigana, bem junto à cidade de Leiria. Já não são nómadas nem se deslocam de carroça, de terra em terra, embora tenham histórias que nesta fase do trabalho não poderemos tratar adequadamente. Não assustam ninguém, são alegres e simpáticos. Assumem com satisfação as suas origens e a sua etnia, e com eles fizemos fotografias.
O Sr António Domingues (foto acima) é o patrono da comunidade. Por duas vezes nos recebeu com a sua esposa, Dª Esperança Nascimento de Jesus, e com outros familiares, recordando uma vida iniciada em Alvega e Concavada (esta, a terra de António Botto, no concelho de Abrantes), no concelho de Abrantes. Seguir-se-iam Alcobaça, Rio e Maior e Leiria.

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