segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

ESPANTALHO: UM VELHO DEUS EM DECADÊNCIA

Havia uma canção que falava do vento e das espigas”

In “Um Barco para Ítaca”, Manuel Alegre, 1971.



1. Debaixo dele se come o milho
Embora o espantalho não tenha sido, até agora, objecto de estudos aprofundados no sentido de caracterizar o seu modo de fabrico, o seu sexo, as suas vestimentas, até que ponto ele reflecte, ou não, a personalidade do fabricante, enfim, a sua essência enquanto objecto funcional, já que as suas funções propriamente ditas são aparentemente conhecidas, o boneco sempre caiu nas boas graças da literatura e, particularmente, na literatura infantil. Talvez até que, pela sua familiaridade, as pessoas não tenham questionado muito sobre tão caricata figura.
Pretenso terror da passarada, acaba também por ser-lhe familiar e, após as primeiras reservas, não só lhe vêm cantar na lapela como, iludindo a sua fria abstracção, comer as preciosas sementes que a criatura foi encarregada de guardar. É bem conhecida, aliás, a expressão “comer milho debaixo do espantalho”, aplicada aos maraus que, sem vergonha ou sem escrúpulos, se atrevem a tocar no fruto proibido e zelosamente guardado, sem temerem o aparato das medidas implantadas.
Mas dizíamos que particularmente a literatura infantil lhe tem dedicado bastante atenção, o que seria interessante analisar, se não transcendesse o âmbito deste apontamento. Contudo, o carácter inócuo do curioso personagem, para mais, sedentário dos campos e das searas, com toda a carga lírica que o envolve, devem ajudar a torná-lo simpático para nós que, espertos, julgamos os outros (pássaros e nem só) estúpidos.
A título de ilustração, vejam-se alguns trechos dessa literatura que, sendo infantil, não deixa de desnudar a pretensa eficácia do espantalho.

“Estava agora a dois metros, se tanto, da estranha figura que o Pardalito Esperto descrevera. Lá se via, com efeito, a gravata amarela, de um amarelo gritante. Aquela figura parecia um homem que estivesse tão quieto como uma estátua. Mas que mal vestido, coitado! Um casaco azul-escuro, já todo roto, umas calças aos quadradinhos pretos e brancos, cheias de remendos, quase a cair-lhe a cabeça (uma cabeça que, exactamente como a cara, parecia feita de madeira), o Dr. Corvo pôde observar uma velha carapuça encarnada (...). Os pássaros andam aterrorizados com a sua presença. Têm medo de si e da sua gravata amarela a baloiçar ao vento”. (Noel de Arriaga: O Espantalhete).

“... Era um boneco humilde de quem a cegonha vaidosa fazia troça. Não incomodava ninguém. Tinha dois grandes braços sempre abertos, à espera que alguém os fechasse com amizade, um casaco com remendinhos de todas as cores, um cachecol e um chapéu preto com uma flor lá no alto (...)”.
“Mas isto de me chamarem Espanta-Pardais é um disfarce. A verdade é que eu não espanto ninguém, e muito menos os pássaros. Ah, essa sim! São uns amigos fixes que sabem histórias e canções e só querem é ser livres, tenham agora medo dum pobre boneco como eu...” (Rosa Colaço – Espanta Pardais).

Curiosamente, nalgumas regiões do país, reconhecida a eficácia do espantalho ou a esperteza dos pássaros, o método para os espantar, embora mais trabalhoso, é infinitamente mais eficaz: é uma pessoa real, normalmente um moço novo, que vai campos fora, cantando e percutindo um tambor, quadro que o pintor José Malhoa imortalizou na sua obra “Espantando os Pardais da Seara”.
Noutras regiões do país, segundo o antropólogo Moisés do Espírito Santo, as populações rurais admitem que o mesmo efeito possa ser conseguido espetando um pau na terra: um pau vulgar, ou um pau do cornudo, sendo este roubado a um homem cuja mulher é acusada de lhe ter sido infiel (o que significará a castração...). Num caso ou noutro, no pau poderá ser pendurado um saquinho com ossadas ou penas de aves e uma foice espetada, sugerindo a morte. Outras vezes, e duvidando, ou não, da (in)eficácia, as pessoas fazem marchas circulares à volta dos campos, proferindo injúrias contra os pássaros, espetam um pau ou um ramo de árvore ao centro: “Para além do significado religioso do espantalho, trata-se de uma técnica, a reafirmação da autoridade sobre o campo, rito equivalente aos cercos e às procissões em volta das aldeias, para evitar perigos exteriores”, acrescenta o antropólogo.
Como meios complementares de defesa pode, por vezes, recorrer-se a sofisticados engenhos como as tramelas, as telhas, ou as caravelas, que com o auxílio do vento são capazes de produzir sons suficientes para assustar a passarada mais destemida...
Mas voltemos, uma vez mais, à literatura:
”Mestre Malhoa está em espírito nas suas obras mais inconfundíveis, mas todo aquele que não tiver a dita de gozar a luz das suas cores, cruze Paços de Ferreira, mais para o seu rural de Meixomil, Eiriz, Sanfins ou Ferreira, neste findar de Verão. Topará, sem custo, o rapazito espantando os pardais da seara. Ele acorda a aldeia com uma cantilena que demora nos tímpanos:

“Xé, ladrões...
Ide p’ro monte
Comer saltões...
Que lá tem mel
E aqui tem fel...
E pode vir o Manuel...”
(Manuel Vieira Dinis: Espantando os Pardais, 1959).

É claro que o espantalho, neste último caso, se animou, virou ser vivo que caminha, canta, faz barulho e, inclusivamente, é capaz de pegar numa pedra e atirá-la ao pássaro mais atrevido ou menos avisado. De simples formação antropomórfica passa-se a uma encenação real que promete melhores efeitos.
O boneco de roupa velha ou de palha, impávido e sereno no meio do campo, cristalizando a má catadura que lhe deu forma, se pudesse pensar certamente se perguntaria: “Quem faz maior figura de parvo? Eu, que estou aqui especado sem dar de mim, ou quem me postou aqui à espera que os pássaros sejam tão parvos que não distingam entre o que os não perturba e o que lhes causa dano?”.
Talvez que, às vezes, o espantalho represente certamente isso – uma vontade manifesta, ou mesmo expressa, e só raramente materializada. É figura de espantalho que às vezes fazemos ou vemos fazer!

2. Um velho Deus em decadência ou extinção
Muito embora nos nossos campos ainda sejam abundantes as plantações de paus encimados por simples vasilhas de plástico vazias ou pedaços de pano, objectos espelhados (CD’s, por exemplo) ou plástico oscilando ao vento, a verdade é que talvez nem estas “inovações tecnológicas” nem os produtos químicos, largamente utilizados na agricultura, tenham conseguido substituir, em definitivo, o velho espantalho, figura simpática com que nos familiarizamos ao longo do tempo, quer através da sua figura física vigilante no meio dos terrenos semeados, quer através das histórias que nos povoam a infância... Porém, a sua história ao longo dos tempos está cheia de pequenas curiosidades que nos escapam no dia a dia, e de que deixamos registo breve.
A função essencial do espantalho, como o nome indica, seria “espantar” ou “meter medo”. No Latim Clássico de Cícero seria “expaver”, o que, no Latim popular terá dado “expaventar”. Daqui ao termo espantalho, um salto linguístico de que o tempo e as gerações se terão encarregado..
Mas a função do boneco não seria apenas assustar, pois em agricultura é importante que as coisas corram de feição, e a ajuda dos santos e dos deuses (pelo menos) dá sempre um certo jeito. Daqui, uma certa raiz mitológica que caracteriza o espantalho. Os Romanos, por exemplo, construíam pequenas imagens do deus Baco, que penduravam nas árvores e vinhas mais sujeitas aos ataques da passarada. Chamavam-lhes “oscilla”, porque oscilavam ao vento. Segundo descreve Virgílio (70 – 19 a. C.) nas Georgicas, (espécie de obra didáctica sobre a lavoura): “Feliz o vinhateiro que via este sinal agitado pela brisa voltar-se para o seu campo. Era sinal de muitas uvas”.
À semelhança das terras da Europa, também na Coreia, por exemplo, o espantalho teve uma significação divina. Ainda hoje é conhecido por Sin-Tjyang, espécie de divindade a que se recorre para a obtenção de boas colheitas.
Os Chineses e Japoneses recorriam a uma espécie de vedação mágica à volta dos terrenos cultivados, constituída por papéis brancos com ideogramas a tinta preta, içados em canas de bambu. Para além de assustarem a passarada atrevida quando agitados pelo vento, as sentenças escritas davam-lhes um grau de eficiência muito mais elevado.
Por tudo isto, o espantalho (a que os ingleses chamam scarecrow, o que significa espanta-corvos) não se limita ao significado directo de uma criação do homem no sentido de afugentar das suas sementeiras os visitantes indesejáveis. O espantalho é, também, o que resta de uma espécie de divindade agrícola a que o homem pediu (e de que obteve) muitas vezes auxílio.
Quanto à sua aparição, talvez não seja arriscado pensar no Neolítico, quando a roda, o arado e o animal de carga desencadearam uma autêntica revolução em que a produção de cereais poderá ter assumido importância fundamental, espécie de acontecimento divinizado por um deus útil, prático e muito à mão de semear.
No entanto, e sem pretendermos por em causa a sua indesmentível simpatia, os seus dias e os seus dotes divinos estarão contados. Trata-se, de facto, de um deus em decadência ou em vias de extinção.

Manuel Paula Maça
(colaboração do meu amigo Carlos Fernandes)





A Seara, de Silva Porto. Lá está o espantalho!


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