quarta-feira, 5 de novembro de 2008

FOJO - CARREIRA DO MATO





A toponímia é estudo essencial para a elaboração da história local. Normalmente os nomes dos lugares reflectem elementos essenciais da sua história longínqua, e daí as dificuldades em os trazer à luz do dia: faltam fontes escritas e a tradição oral aparece frequentemente fantasiada e em rota de colisão com os elementos que a investigação histórica permite apurar e sustentar.
Quem nasceu e cresceu num meio rural registou nomes que, muitas vezes, sugerem origem botânica e animal, ou de geografia física. É evidente o caso dos topónimos Aldeia do Mato e Carreira do Mato, reportados a uma época que não sabemos situar no tempo, em que o mato e a lenha abundavam e eram recurso e riqueza natural. Depois recordamos, entre outros, o Cabeço da Lebrinha, o Vale da Oliveirinha (que passou a chamar-se Valesveirinha), o Fojo, os Currais (Curréis), o Outeiro da Raposa, a Estrada Larga... Não esqueceremos, também, topónimos de provável ou eventual raiz antroponímica (provenientes de nome de pessoas): Barreiro, Arteia (Arroteia), por exemplo. Não iremos, por agora, tentar alongar-nos da matéria, posto que não temos elementos para tal. Porém, sobre o local designado por fojo poderemos falar.

O fojo é uma vasta extensão de mata e pinhal, de terreno algo acidentado, à entrada / saída (Sul) da Carreira do Mato. Um velho mapa de que dispomos assinala o local mas não precisa a sua extensão nem os seus limites, o que pouco importará nesta abordagem.
O porquê deste nome (topónimo) foi matéria de natural curiosidade ao longo dos anos, pois quem nasceu e viveu ali ao lado ouviu contar histórias de lobos e de pastores. Dizia-se que antigamente os lobos eram apanhados no fojo!
Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Porto Editora, um fojo pode ser uma "cova funda com abertura disfarçada, para apanhar animais ferozes". Os nossos vizinhos galegos escrevem foxo, o que significa "concavidade profunda no terreno" ou "buraco dissimulado para caçar animais" (1). O Dr. José Pedro Machado (2) esclarece que o termo vai colher a sua origem longínqua ao verbo cavar, em Latim (fodëre, donde foggia).
Até meados do século passado a Península Ibérica apresentava, ainda, razoável quantidade de lobos. Em tempos mais remotos, este predador era o grande inimigo dos pastores e das próprias comunidades rurais, onde e quando a pastorícia era uma das actividades dominantes. Isto transformava o combate aos lobos numa tarefa colectiva, capaz de juntar e congregar os habitantes de uma ou de varias aldeias, transformando em festa concorrida a captura de um animal. Na Galiza chegava a constituir-se uma espécie de tribunal comunitário para julgar o lobo apanhado vivo no foxo... embora tivesse direito a um advogado de defesa, a condenação a uma morte cruel era inevitável.
Percebemos, então, que um fojo era uma armadilha para apanhar lobos.
Um estudo conjunto de portugueses e galegos, iniciado em 1997, identifica cinco tipos de fojos, mais ou menos rudimentares e simples, ou mais elaborados. O fojo podia, então, ser uma simples cova ou fosso, com dimensões variáveis, coberta e disfarçada com vegetação, tendo por vezes no interior um pau aguçado espetado no chão ao alto.
Frequentemente, mais a norte de Portugal e na Galiza, os fojos eram construções de pedra para onde o lobo era conduzido em batidas, ou, então, atraído através da colocação de cabras ou ovelhas doentes no seu interior, actuando como isco. O interior do fojo era mais alto que o exterior e, uma vez lá dentro, o lobo não conseguia sair.
Em Portugal é emblemático o Fojo do Lobo da Samardã, no concelho de Vila Real, espécie de símbolo da arquitectura popular comunitária, de grande valor etnográfico. Tem forma oval, com cerca de 66 e 43 metros de diâmetro maior e menor, respectivamente, e uma altura de 3 metros no interior. O escritor Camilo Castelo Branco, em "Novelas do Minho" (3) faz curiosa e interessante descrição das suas passagens pelo fojo da Samardã: "Eu é que conheço a Samardã, desde os meus onze anos (...)".
Finalmente, de Norte a Sul de Portugal são muitos os lugares onde o termo fojo é elemento toponímico. Normalmente são zonas serranas, onde se praticava a pastorícia e onde os lobos apoquentavam os pastores e lhes comprometiam as frágeis economias de subsistência.
Pela localização estratégica (entrada / saída da Carreira do Mato), pelas histórias que ouvimos dos mais velhos e pela abordagem que deixamos, fica a presente proposta de explicação em relação ao fojo da Carreira do Mato: um fojo rudimentar, composto por fossas ou buracos escavados no solo, certamente.
Mas o pobre lobo também merece umas palavras, pois é hoje uma espécie quase em vias de extinção. Porém, se o homem mata por sede de poder, ódio, ambição e, até, por prazer, o lobo mata apenas para se alimentar, para sobreviver, em obediência ao instinto. Animais como a águia, o leão ou o tigre, também matam para sobreviver, e até simbolizam clubes de futebol, mas o lobo não teve a mesma sorte. O imaginário popular criou as histórias dos lobos maus, dos lobisomens, dos maus presságios e das doenças em animais domésticos. Entre nós, as diversas armadilhas, os venenos e as armas de fogo haviam de, gradualmente, ditar quase o fim da espécie conhecida como lobo ibérico.

Manuel Paula Maça
manoel.maza@gmail.com

(1) Diccionário Cumio da Lingua Galega
(2) Dicionário Etimológico da Lingua Portuguesa.
(3) Novela "O Degredado".

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