domingo, 16 de novembro de 2008

CABEÇA GORDA: O TIO BERNARDINO, COM PENICHE AO FUNDO
O MEU TIO-AVÔ BERNARDINO
Nos tempos da minha infância a história da família ia-se percebendo e construindo devagar, se calhar ao ritmo do crescimento dos pinheiros agarrados às pedras no cimo dos montes ossudos, com as águas tortuosas do Zêzere a serem domadas lá ao fundo, no Castelo do Bode, onde o vale empanturrado se espraiava. As famílias da aldeia eram muito parecidas, se não mesmo iguais, porque muito marcadas por ausências vagamente perceptíveis e de que pouco se falava.
Um dia apareceram lá em casa umas latas de sardinha de conserva, e a minha avó materna explicou-me que tinham sido mandadas pelo tio Bernardino (seu irmão), que morava lá longe, numa terra chamada Peniche. Afinal, esse parente tinha fugido da Cabeça Gorda e desertado por ocasião da primeira guerra mundial. Andando de um lado para o outro, acabara por se fixar em Peniche, tentando e conseguindo escapar aos horrores do teatro de guerra.
Quando se é criança, há coisas que são simples, claras e isentas de grandes atribulações epistemológicas, e, por assim dizer, ficam-nos facilmente (ou saudosamente?) gravadas na memória. Devo, portanto, ter decretado que se as sardinhas eram deliciosas, o tio Bernardino seria boa pessoa, e Peniche uma boa terra. Não me enganei, acho.
Volvida a infância, a vida levou-me para Lisboa, e no princípio não me foi fácil perceber o que trazia para ali, também, os filhos do meu tio-avô Bernardino: o Ferrer, o Florimundo... e até a neta Marlene, na graciosidade de uma adolescência que não estaria isenta das leis que trazem os ventos e as chuvas, pois não são apenas de sol as estações do ano. Por que razão eles, e até o Mário, pareciam voltar as costas a Peniche, onde o mar chegava a entrar nas casas das pessoas, onde havia muito peixe e deliciosas sardinhas de conserva?
Cresci, deste modo, com Peniche ao fundo, nos horizontes da ingenuidade e da imaginação. A adolescência deixou-me na memória uma canção que falava “naquela janela virada p’ro mar”, estranhamente dolente e tristonha, nostálgica e agridoce, por desígnio irónico cantada por Tristão da Silva. Foi por essa altura que comecei a ouvir dizer que em Peniche havia presos políticos, e em breve viria a perceber que muitos pagavam com a prisão e com a tortura a ousadia de pensar, num país e numa sociedade de pessoas e instituições “respeitáveis”, na aparência, mas com laivos de criminosa cumplicidade, envolvida em mantos pretos e vermelhos, no estilo simbólico de Stendhal em “Le Rouge et le Noire”.
Mas Peniche e as suas gentes não tinham culpa de existirem presos políticos, como não lhe cabiam responsabilidades no episódio de “os amigos de Peniche”, reportado aos tempos conturbados de D. António, Prior do Crato.
Mas foi preciso chegar aos dezassete anos para eu ir a essa terra donde, em criança, vinham latas de sardinha, agora já com história e lenda de permeio, ou seja: aos dezassete anos fui a Peniche, para participar no funeral do meu tio-avô Bernardino!
Com o devir do tempo, as reviravoltas da vida e as coisas da história passaram a arrastar-me, de quando em vez, para essa terra onde, afinal, corre sangue que é um pouco como o que me percorre as veias e as artérias. E que saíu da Cabeça Gorda, da Aldeia do Mato!
Encontrei livros sobre Peniche, e assumo falar de uma obra consistente e rica chamada “Peniche na História e na Lenda”, da autoria do Dr. Mariano Calado.


PENICHE NA HISTÓRIA E NA LENDA
Temos, então, pela frente um livro com quase 500 páginas, da autoria do Dr. Mariano Calado, enriquecido por cerca de 260 ilustrações (gravuras, desenhos, mapas, fotografias) e vários índices. É obra!
O desenvolvimento dos temas, as fotografias, as ilustrações, as abundantes e precisas referências históricas e bibliográficas, permitem uma enriquecedora viagem, no tempo e no espaço, sempre longe da superficialidade ou do facilitismo. Se a expressão é consentida, aqui não se navega “à superfície das águas”, pois ricas são as suas profundezas em história e lenda, e a própria noite dos tempos apresenta muitos raios de cintilante claridade.
O autor mergulha, então, na lonjura dos tempos para admitir que os grandes répteis devem ter povoado a região muito antes da presença humana, a lembrar-nos os achados de restos de dinossauros encontrados, entretanto, na Lourinhã, cujo museu aproveitamos já para recomendar.
Percebemos que, morfologicamente, Peniche teria sido uma ilha, formada há cerca de 150 milhões de anos, com registos da presença (ou passagem) do homem pré-histórico, até à fixação de diversas e diferentes comunidades, até à fundação da Nacionalidade, no século XII.
A origem do topónimo tem abordagem interessante e honesta, deixando-nos o autor diversas hipóteses, devidamente analisadas, avaliadas e sopesadas.
Ficamos a saber que, de um modo geral, os monarcas atribuíram ao eixo Peniche-Atouguia um importante interesse estratégico, e desde já fica dito que a própria história de Portugal passou por aqui, em momentos decisivos, desde a conquista de Lisboa, passando pela crise pós 1580, pelas Invasões Francesas, pelas lutas entre Miguelistas e Liberais, até ao papel desempenhado pela prisão, que antes dos presos politicos do Estado Novo chegou a albergar alguns alemães (entre 1916 e 1919, no contexto da I Grande Guerra).
O aparecimento das fábricas de conservas, de congelação e de indústrias afins também merecem tratamento, e porque Peniche é terra de rendas o autor aproveita para lembrar o aforismo “terra de redes, terra de rendas”.
A questão dos caminhos de ferro deixa-nos a ideia que os problemas da Linha de Oeste vêm de longe, pois durante décadas Peniche esperou por um ramal de ligação à localidade de Dagorda, não tendo a decisão oficial de 1926 passado do papel, apesar do bonito projecto da estação, cujo desenho é reproduzido no livro.
Ao falar de Urbanismo e Monumentalidade, o Dr. Mariano Calado entende que Peniche não é rica na matéria, atribuindo aos lugares em redor maior relevo e representatividade neste domínio. É uma questão de ler o que está escrito e visitar a região, mas convém ter presente a riqueza e a diversidade dos monumentos religiosos.
Em termos de solidariedade social, fica a ideia de que foram os Penichenses a deitar mãos à obra, com os apoios diversos, muitas vezes parcos e simbólicos, se não de um certo modelo de inspiração caritativa.
Em termos de cultura e recreio, apercebemo-nos da força do associativismo, na criação e gestão de espaços, de grupos e bandas de música, até ao Coral Stella Maris. Surpreende-nos a actividade teatral, com muita produção própria, nas primeiras décadas do século XX. E não é que encontramos, no livro, uma fotografia com o (leiriense) Miguel Franco, autor da conhecida “Legenda do Cidadão Miguel Lino” (peça de teatro)?
O autor avança noutros domínios, porventura na área da etnografia. Deixa nota sobre feiras, festas e romarias, e sobre diversos usos e costumes de feição popular. De permeio com diversas matérias, vai-nos deixando notas sobre o trajar.
O mar de Peniche era palco constante de naufrágios e mortes. Daí, o imaginário popular ter criado os seus mitos, as suas histórias de ajudas sobrenaturais e milagrosas, qual espécie de deuses caseiros... que ajudavam e aliviavam na dor, afinal.
No capítulo “Quando a Morte Ronda” o autor deixa-nos uma lista de diversos naufrágios ocorridos na costa, com algumas fotografias dos mais recentes.
O livro recomenda-se, pois, a todos os que gostam de Peniche e das terras à volta, aos que se interessam pela história de Portugal e pela historiografia local. A população estudantil também terá, aqui, valioso manancial de registos documentados e fundamentados, para estudo e consulta. É um trabalho árduo, sério e honesto, claramente feito com amor e carinho, que enriquecerá qualquer biblioteca ou simples mesa de leitura. Por isso mesmo, a obra terá também como destinatários os que quiserem partir à descoberta de Peniche e da sua história. Nas suas próprias palavras, o Dr. Mariano Calado deseja que este trabalho possa “ser de algum modo útil ao povo penicheiro que, entre folas e mares rasos, entre safras de esperança e naufrágios de desgraça, sempre tem tido a coragem de querer – e saber – construir a sua terra”. O livro é isto, e muito mais!


Titulo: Peniche na História e na Lenda.
Autor: Mariano Calado.
Prefácio: do Autor.
1ª Edição: 1962
2ª Edição: 1968
3ª Edição: 1984
4ª Edição: 1991, 478 páginas.



OS AMIGOS DE PENICHE: DA HISTÓRIA AO EQUÍVOCO
Datará de 1589 o conjunto de factos históricos que levaram à adopção da expressão “amigos de Peniche”, para designar os falsos amigos. Evidentemente que a expressão não é lisonjeira, pois quem conhece ou visita Peniche apreende facilmente que os sentimentos de solidariedade e de fraternidade que caracterizam a sua população não se ajustam a tal ideia.
Na verdade, a localização geográfica (estratégica, se quisermos) de Peniche tornou-a apetecível para acções de natureza político-militar desde tempos ancestrais. Omitindo os aspectos inerentes às ocupações anteriores à fundação de Portugal, tivemos a crise da sucessão resultante do desastre de Alcácer-Quibir, que veio a trazer as tropas inglesas. Mais tarde, a partir de 1808, tivemos as Invasões Francesas, com o combate da Roliça e a Batalha do Vimeiro, não muito longe dali. Mais recentemente, o Estado Novo, fez da fortaleza de Peniche uma prisão para presos políticos. Nada disto, porém, poderá retirar a dignidade a uma terra, a uma comunidade cuja história fica marcada: tristemente, concederemos, mas ultrajada, não.
Este não é lugar para desenvolvimento das controvérsias sobre a batalha de Alcácer Quibir, nem para dissertar sobre as teses possíveis em torno dos factos que deram D. Sebastião como morto (ou não), mas importa reconhecer que a hipótese da união ibérica tinha simpatizantes e adversários. Se o monarca morreu, de facto; se se refugiou no Senado de Veneza, ou no Convento dos Agostinhos, em Limoges (França), ou em qualquer outro lugar, beneficiando de protecção de Filipe II de Espanha, são questões que muita tinta fariam correr e sobre as quais não deixaremos opinião.
Depois do desaparecimento de D. Sebastião, a regência tinha sido assumida pelo Cardeal D. Henrique, seu tio-avô, sendo natural que a sua avançada idade causasse preocupações compreensíveis e conflitos de interesses nem sempre consentâneos com a graça de Deus, que, ainda assim, não tardaria a chamá-lo à sua divina presença.
A par de Dª Catarina de Bragança, D. António, Prior do Crato, era uma das hipóteses de sucessão, mas o facto de ser filho natural de D. Luís I e de uma mulher judia (Violante Gomes, de seu nome) era apenas uma peça do complexo xadrez que não lhe era favorável. Filipe II também era neto de D. Manuel I e não abdicava das suas legítimas prerrogativas, num contexto a que a Igreja Católica não era alheia, pois D. Henrique até tinha sido Inquisidor-Mor e a ingenuidade não seria um dos seus atributos. Filipe II acabaria por ser aclamado rei de Portugal nas cortes de Tomar, em Abril de 1581, diz-se que com apoio da “nata quase toda da nobreza e a gente de substância”.
Dizem os livros que os apoios de D. António estariam no Bispo da Guarda e no povo, principalmente em Lisboa, onde consta que teria sido aclamado rei de Portugal (D. António I) e feito cunhar moeda. Mas as tropas de Filipe II avançaram sobre Portugal, sob comando do Duque de Alba, sem encontrarem grande resistência, ao que consta.
D. António partiu para Inglaterra, tendo a rainha acedido a dar-lhe apoio militar, porventura empenhada em combater os seus tradicionais inimigos castelhanos. As esperanças nacionalistas voltaram-se para as tropas inglesas do corsário Drake, que aportaram justamente a Peniche, onde desembarcou importante grupo de militares, sob o comando de John Norris, já que os outros iriam ate Cascais, com o próprio D. António.
À semelhança do que já haviam feito na Galiza (Corunha e Vigo, principalmente) e noutras paragens, noutras expedições, os homens da armada inglesa de Drake, que era suposto virem como amigos, roubaram, destruíram e maltrataram. Os ingleses desembarcados em Peniche e em Cascais foram a esperança frustrada, os amigos que evitaram a luta com os castelhanos e abandonaram os apoiantes de D. António, apressando a retirada inglória do próprio.
Deste episódio de expectativas frustradas e de “falsos amigos” os Penichenses não tiveram culpa, mas assim se criou e permaneceu uma espécie de equívoco que a história tem aclarado mas que os desgosta ainda hoje. É, afinal, a história e a lenda!

Manuel Paula Maça

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